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Contos - Enviado dia 4 de Abril de 2009

A Criatura dos Subterrâneos do Colégio


PRÓLOGO

Para gente como Carlinhos, a pior hora da escola é o recreio.

Com quatorze anos, o menino teve poucos amigos, nenhuma namorada. É tímido. Não se destaca em nenhum esporte. Nunca ganhou uma briga. Não consegue dizer nada com a voz muito alta. No entanto, suas notas são excelentes, sua inteligência é rara, seu desempenho em tudo o que faz com o cérebro é enorme.

Não é de se admirar que, tão diferente daquele estereótipo que todo o adolescente busca encarnar, ele sofra a tiranização daqueles de cérebro menos capaz, mas de mais ousadia e agressividade, que, talvez, lá no fundo, se ressintam e sintam inveja de sua vasta gama de talentos. E a melhor maneira de disfarçar esta inveja é com desprezo e humilhação.
E é na hora do recreio que tudo acontece.

O colégio é grande demais para que todas as coisas que acontecem no recreio sejam vigiadas. E mesmo que nada passasse desapercebido aos olhos dos inspetores de disciplina, muitos dos piores valentões que se divertem nestas horas são filhos de gente importante. Num colégio particular, isto os absolve de quase tudo. E aí então, gente como Carlinhos, que ali está em função de uma bolsa de estudos conseguida por suas excelentes notas no primeiro grau, que vem de uma família humilde, e não tem a imunidade necessária, acaba sendo jogada em latas de lixo, tendo papéis grudados nas costas com dizeres de “chute-me”, tendo livros jogados no chão, lanche roubado, muitas vezes apenas para ser jogado fora, ou então precisa aturar apelidos toscos. Pode não parecer grande coisa quando lembramos de tantos outros jovens que sofrem com a miséria, a violência, abusos dos pais, são obrigados a mendigar, roubar ou se prostituir. Mas para quem está num lugar que dá a impressão de que a vida é uma grande festa, e você não foi convidado e nem o será, estas coisas são ruins o suficiente para fazer com que se deseje ser capaz de ser invisível.

Por causa disso, naquele recreio em particular, Carlinhos havia conseguido a permissão para ajudar a velha bibliotecária do lugar a organizar alguns volumes. Isto levaria a semana inteira, e o livraria do peso de ter que estar no mesmo pátio imenso que os outros.

O colégio é grande. Foi uma mansão no século XIX. No começo do século XX foi transformada em uma instituição de ensino. Desde então, passou a ser ampliada cada vez mais, embora todos os diretores e a administração em geral tenham se esforçado para manter, por uma questão de estilo, as mesmas características arquitetônicas do edifício original. Isto acabou transformando o lugar num labirinto com nuances de mansão gótica.
E nossa história começa no exato instante em que Carlinhos, que se esgueirou pelos corredores em direção à ampla biblioteca assim que o sinal para o recreio soou, acaba de chegar às portas do lugar, que o esperam abertas...

 

I

 

- Oi, Carlos – disse a bibliotecária, tão logo ele chegou – dois amigos seus vieram te ajudar também.

Com o canto de olho, Carlinhos consegue ver, atrás da velha senhora, os dois “amigos”. Ambos com uniforme do colégio, como ele, mas com bonés virados para trás deixando o topete sair pela abertura posterior. Expressão maliciosa e sorridente. Os dois têm cerca de dezessete anos, e ambos estão na mesma série que ele. Seus nomes, Márcio e Jonas. Jonas, o mais astuto dos dois, assim que foi visto por Carlinhos, colocou um dedo sobre os lábios sorridentes, como a dizer:

Não ouse mencionar que não deveríamos estar aqui!

Carlinhos sente um arrepio. Aqueles dois são sinônimos de encrenca, pelo menos para ele. Enquanto a velha bibliotecária, cujo nome lhe escapou naquele instante, virou-se para selecionar algumas edições que ele ajudaria a empilhar, os dois se aproximam e ficam lado a lado dele. Carlinhos é magro, mais baixo que ambos, o que é natural, dada a diferença de idade, e usa óculos grossos. O cabelo cortado curtinho não permite topetes.

-O Cacá falou com a professora e disse que precisava de mais gente pra empilhar estas tralhas! – disse Jonas.

-Livros! – gritou a velha.

-É! Livros! E a gente se ofereceu! - completou Márcio – Não é, Cacá?

-Âhn...

-E a professora disse que ele iria nos mostrar uma pilha nova de doações lá embaixo. Vamos voltar com ela em instantes.

-Tudo bem – resmunga a mulher – tenham cuidado nas escadas.

Cada um dos dois coloca uma mão no ombro ou no cotovelo de Carlinhos, como é chamado pelos professores que simpatizam com ele, e os três saem.

-Gente... – murmura ele pelos corredores – eu não sei o que a professora disse, mas... essa pilha de doações...

-Não tem doação nenhuma, trouxa! – diz Márcio – Foi só pra te livrar daquela chatice!

-Mas... por quê?

-Por que a gente tem que te mostrar uma coisa.

Os três estão andando pelos corredores e buscando uma das escadarias. Começam a descê-la. É um lugar pouco transitado, e pouco iluminado. Àquela altura, deserto. O colégio é grande demais. Se eles quiserem lhe dar uma surra, ninguém vai ouvi-los.

-Lembra do Neves, o antigo zelador? – pergunta Jonas.

Claro que ele lembra. Um velho esquisito, de poucas palavras e expressão gelada. Fazia três semanas que não era visto na escola. Há duas já havia um zelador novo, bem mais jovem e alegre. Algumas meninas já suspiravam por ele.

-Aquele que foi embora?

-Ele não foi embora. Não reparou como ficamos uma semana sem zelador, e sem explicação nenhuma? Ele foi assassinado!

Carlinhos empalideceu. Do que Jonas estava falando? Como é que eles sabiam?

-Mas quem...?

-Não foi uma pessoa – disse Márcio sorrindo – foi um monstro!
Então era isso. Uma pegadinha. Uma brincadeira macabra e imbecil. Eles o julgavam mais otário do que o normal.

-O colégio é muito antigo, Cacá – ele odiava este apelido – e foi construído em cima de um cemitério. Dizem que, há uns cinqüenta anos, um professor de biologia descobriu uma entrada pra uma cripta. E fez umas experiências lá.

“Eu também já assisti Re-animator, seu cretino!” - Carlinhos tem vontade de gritar.

-Dizem que o resultado é uma coisa... uma criatura meio viva e meio morta que vive nas catacumbas do colégio. E que nunca morre... mas está sempre com fome.

-E como é que vocês sabem disso?

-Porque a gente viu ela, seu trouxa! – disse Márcio – Ela e um pedaço do Neves. E agora a gente quer te mostrar.

-Mas o que eu...

-Tu não é o gênio da turma? – diz Jonas, desenhoso – A gente quer que tu dê uma olhada, e nos diga se a gente está certo em pensar que foi a criatura. Sabe, a mão dele...

-Pára! Não inventa história! E eu não sou nenhum médico legista pra...

-Tá nos chamando de mentirosos, babaca?! – o sorriso de Márcio se desfaz subitamente, e ele para na sua frente.

Acabaram de chegar ao térreo. O corredor em que a escadaria desemboca está completamente deserto. Ele está completamente desprotegido e vulnerável. Calado. Suando frio.

-Relaxa, Márcio – diz Jonas – se a gente não tivesse visto, também não ia acreditar. Faz o seguinte, dá uma olhada no que a gente achou e depois tira tuas próprias conclusões.

Com um gesto, Jonas faz com que os dois o sigam. Dão a volta e vão parar embaixo do primeiro lance da escadaria. Há ali uma portinha discreta, quase invisível, provavelmente um pequeno depósito de material de limpeza ou de tralhas velhas. Deveria estar trancada, como a maioria das portas deste tipo, mas Jonas retirou do bolso uma chave enferrujada. Virou-se para os dois e disse.

-Só dá uma olhada, Cacá. Depois, se quiser, a gente nem fala mais desse assunto.

Ele parece estar falando sério. Sério demais para uma brincadeira. Se os dois quisessem apenas atormentá-lo, poderiam ter feito um milhão de coisas que condizem melhor com seu intelecto, como, por exemplo, amarrá-lo no corrimão e abaixar suas calças, deixando ali para ser visto pelos primeiros que passarem.

E, além disso, Jonas está parecendo um cara legal pela primeira vez. Como se realmente quisesse que ele examinasse o que eles encontraram.

-Tudo bem – diz Carlinhos, ainda um pouco em dúvida – mas como era a criatura, e onde vocês a viram?

-Não deu pra ver direito. Parecia um homem agachado, roendo alguma coisa, e fugiu quando viu a luz. Mas deixou o que estava roendo no chão, antes de sumir por um buraco num canto escuro. E era uma mão humana, com aquele mesmo anel estranho que o Neves usava. E isso foi neste quartinho aí dentro. Vamos lá?

Um anel que mostrava um pentagrama toscamente pintado onde deveria haver uma jóia. Muito comentado.

-Tudo bem, vamos dar uma olhada.

Jonas sorriu. Abriu a porta. Lá dentro, viu-se um interior maior do que se poderia supor olhando de fora. Estava repleto de mesas e cadeiras velhas empilhadas, e, para entrar, primeiro abaixava-se a cabeça e depois se descia quatro degraus. Jonas foi o primeiro, Carlinhos o segundo. Márcio veio logo atrás.

Não era possível discernir com exatidão o tamanho do lugar. Havia pilhas de trastes até o teto, e a luz que entrava não alcançava nenhuma parede visível, somente elas. A impressão era a de complicada e sufocante infinitude.

A porta se fechou e tudo ficou em trevas. O facho de uma lanterna nas mãos de Jonas mostrou o aposento novamente. Grande. Sem janelas. Sufocante. Ele foi guiando, entre duas filas de mesas empilhadas. Parou junto a um armário. Chegou para o lado e disse.

-Dá só uma olhada, Carlos.

Carlinhos se aproximou, e curvou-se sobre o objeto que Jonas apontava no chão. Engoliu em seco. Era uma mão.

A mão de plástico de um manequim. Estava escrito com corretivo líquido no pulso.

 

TROUXA

 

Antes que pudesse pensar, as mãos fortes de Márcio o empurraram pelos quadris e ele mergulhou de nariz no chão. Um barulho infernal de mesas sendo derrubadas e gargalhadas ecoou atrás dele. Levantou-se, tentando desbloquear o caminho inutilmente, enquanto ouvia os outros dois se afastando. Rindo alto, sem medo de serem ouvidos.

Escalou desajeitadamente a pilha de mesas. Tropeçou e rolou para o outro lado, sentindo a dor de futuros hematomas em vários pontos do corpo. Levantou-se mancando e gemendo e tentou correr. Viu Jonas, sorrindo, parado junto à porta. Esperava por ele.

-Vamos, lá, Cacá! Velocidade! Força! Você consegue!

Carlinhos pisou em alguma coisa que deslizou e caiu de novo. Era uma perna de mesa. Levantou com ela nas mãos e gritou de raiva, correndo em direção à porta ainda aberta.

-Tchau, seu merda! – disse Jonas.

A porta se fechou e o aposento ficou totalmente escuro. Carlinhos continuou correndo e tentou abrir a porta. Bateu com as mãos. Chamou os dois. Gritou. Deu pancadas com a perna de mesa cilíndrica até ficar com os dedos roxos. Ninguém o atendeu. O colégio era muito grande.

-Vocês me pagam! Eu juro que vocês me pagam!

Em seguida, apoiou-se na porta e começou a chorar. Por que com ele? Por que sempre acontecia com ele? Algum dia tinha feito algum mal para aqueles dois? Algum dia tinha feito algum mal para qualquer pessoa? Não. Nunca tinha. E todo o mundo o achava um idiota. Jonas e Márcio viviam arrumando brigas, desprezavam e atormentavam todos que eram mais fracos, gostavam de machucar os outros. E todo o mundo os achava legais...

Acalmou-se. Alguém iria acabar aparecendo. Ia tirá-lo dali. Ele voltaria para a casa e para a escola no dia seguinte. Não comentaria nada com ninguém, e nem ninguém com ele. Mas sentiria as pessoas rindo às suas costas, quando a história fosse contada com orgulho pelos dois.

E a vida continuaria.

Mas, neste exato instante, algo inusitado aconteceu.

Parado, de frente para a porta, esta visível apenas pela silhueta desenhada pela luz do lado de fora em torno da madeira, ele ouviu um ruído suave atrás de si. Vindo de lugares mais profundos e escuros daquele aposento, esgueirando-se silenciosamente entre os entulhos, atraído pelo estardalhaço, alguém acabara de chegar atrás dele, e só agora sua presença invisível era notada.

Carlinhos sentiu, com horror e repugnância, uma mão gelada e viscosa pousar sobre seu ombro direito. Suas pernas pareceram se tornar colunas de chumbo e suas mãos crisparam-se em torno do pedaço de madeira que era sua única e débil defesa.

 


II

 

Carlinhos não reapareceu depois do recreio. A professora, que não era a mesma do período anterior, fez a chamada e pensou que ele não estivera ali desde o começo. Seu material, que ainda estava na sala, havia sido escondido sob um armário. Era uma brincadeira comum, feita com vários colegas, mas com ele mais do que com os outros. Por sorte ou azar, fora feita por alguém que desconhecia seu paredeiro.

O sinal soou ao meio-dia e os alunos foram para suas casas. Carlinhos ainda não aparecera.

No caminho de casa, Márcio comentou com Jonas.

-Ô, cara, será que ele ainda tá lá?

-Quem sabe? Mas ele não vai ficar lá pra sempre. Essa chave era do Neves, eu roubei dele. O outro zelador deve ter também, e uma hora ele vai abrir.

-Sei não! A gente nunca tinha visto aquele lugar antes, e, da primeira vez que a gente entrou, parecia ter poeira de séculos! E se ele... sei lá... morre de fome ou coisa assim?

-Deixa de ser otário! É um colégio, é cheio de gente. Logo, logo alguém acha ele. Você parece maluco!
E foram andando. Márcio olhou pra trás. Algo o deixava muito inquieto.
O imenso e irregular edifício, sob o sol do meio dia, tal qual um gigante imóvel, ainda que vivo, parecia lançar-lhe olhares malignos, zombeteiros e acusadores.

 

III

 

Jonas voltou para a casa, almoçou, saiu à tarde para um encontro com uma garota. Como ela não quisesse dar-lhe o que ele queria, abandonou-a em sua própria casa, onde estivera sozinha a esperá-lo por muito tempo, ingenuamente acreditando que receberia romance. Chegou de volta à sua casa antes de escurecer. 

Por volta das sete horas da noite, recebeu um telefonema em seu quarto, enquanto contava o dinheiro que ainda tinha em sua escrivaninha pensando na melhor maneira de gastá-lo.

-Cara, a gente tá encrencado!

A voz do amigo era de angústia extremada. Quase desespero.

-Quê? Por que, Márcio?

-Ele não saiu de lá até agora!

-Como é que cê sabe?

-A mãe dele ligou aqui em casa. Ele não apareceu em casa e ela telefonou pro colégio. Pediu o número de todos os colegas dele. Uma hora vai ligar pra tua casa também. Minha mãe falou com ela, disse que tava em pânico! Meu pai me perguntou se eu sabia de alguma coisa, e ameaçou me dar uma sova se eu estivesse escondendo. Acho que ele não sabe direito que tipo de gente é o Cacá... perguntou se ele usava drogas...

-Putz!

-E agora?

Subitamente, o medo de Márcio atravessou o espaço entre os dois e infectou a alma de Jonas também, embora se manifestasse com características próprias.

-Agora eu acabo de pensar numa outra merda. Aquela professora da biblioteca. Ela viu a gente com ele. Se falarem com ela, podem pensar que...

-Mas, Jonas, isso é mais esquisito do que parece. Como é que ele não saiu ainda de lá? Será que teve um treco? Desmaiou? A gente pode se encrencar bem mais do que levar uma suspensão se...

De todas que aprontara até agora saíra impune. Carlinhos, e vários outros, sempre ficavam quietos. Mas nunca ninguém ficara desaparecido por tanto tempo por causa dele. No momento em que o idiota que eles haviam trancado naquele quarto saísse dali ele seria obrigado a dar uma explicação. O que significaria, obviamente...

Era melhor não pensar.

-Tá. Calma. Vem aqui pra casa e a gente vai pensar no que fazer.
Meia hora depois, uma mãe de poucas palavras e expressão entediada avisava Jonas que seu amigo havia chegado. Sozinhos, no quarto, Márcio dizia:

-Acho que era bom a gente contar logo!

-Tu tá louco??

-Jonas, eles vão saber da brincadeira. Dessa vez o Cacá não vai ficar quieto. Você ouviu como ele gritava! Nunca tinha visto ele com raiva daquele jeito! Acho que podia ter acertado a tua cabeça com aquele pedaço de pau se te alcançasse!

-E eu lá tenho medo de nerd?

-Mas se ele estiver passando mal, ou com algum problema, é melhor contar logo, porque, se ele morrer...

-Ninguém vai morrer, idiota, fala baixo!

-O que é que a gente faz, então, car...?

Uma pancada bem leve na janela do quarto. Os dois pularam ao mesmo tempo. Olharam para a vidraça. Nada. Ficaram mudos. Jonas, lentamente, agarrou um de seus brinquedos favoritos, um canivete de pressão que ganhara de presente do pai no natal. Apertou-o com as mãos.
Márcio se aproximou da janela, a curiosidade vencendo o medo passo a passo.

O que esperavam os dois? Por que aquela pancada os assustara tanto? Que sentimento era aquele, terrivelmente opressivo, que parecia impregnar o ar do quarto?

-Tá vendo alguém? – sussurrou Jonas.

-É ele.... tá parado no teu pátio... nossa, que esquisito!

Jonas correu até a janela. No meio do pátio estava Carlinhos, parado. Suas roupas estavam com vários rasgos, e ele tinha pelo corpo as marcas dos hematomas do tombo. Seu rosto estava sério e meio em choque. Não usava mais os óculos, que haviam quebrado na confusão. Seu cabelo estava tão desgrenhado quanto um cabelo curtinho como aquele poderia estar.

Assim que o viu, o garoto no pátio colocou o indicador da mão esquerda sobre os lábios. Depois, com a mesma mão, fez sinal para que os dois chegassem até ele. Tinha a aparência de um espectro.

A mão direita dele ainda segurava o pé-de-mesa.

Silenciosamente, movidos em parte por curiosidade, em parte por instinto de autopreservação, os dois abriram a janela e se esgueiraram para o pátio interno. A casa de Jonas era grande, e tinha um pátio bonito nos fundos, com árvores frutíferas e uma velha “casinha do Tarzan” de quando o garoto era ainda uma criança, construída numa árvore maior. Mas tinha também uma cerca eletrônica que dava choques e disparava um alarme. Era difícil entender como Carlinhos entrara ali.

-Como foi...? – Jonas começou, mas foi imediatamente interrompido.

-Vocês mesmo disseram que eu era o geniozinho da turma. Desativar o alarme foi a parte fácil. Subir o muro é que foi um pouco complicado.
O sorriso que acompanhava aquelas palavras era sardônico. Muito diferente dos arreganhares breves e tímidos que normalmente havia na boca do menino. Márcio percebeu isso com maior clareza, e sentiu um arrepio:

-Cara... tu tá bem?

-Tô vivo. O que é bem melhor do que eu esperava.

Houve um silêncio breve. 

-Vocês queriam aprontar uma comigo. E conseguiram. Mais até do que imaginam. O engraçado é que dois idiotas como vocês estavam certos sem saber.

-Quem você tá chamando de...

Jonas ergueu a mão, já pronto a resolver a coisa da forma que normalmente fazia com qualquer um em desvantagem, mas Carlinhos ergueu o seu bordão improvisado quase na altura de seus olhos. No princípio o que o fez parar foi imaginar que estava sendo ameaçado de volta, e um cdf com um pedaço de pau ainda é alguém com um pedaço de pau, mas em seguida percebeu que Carlinhos apenas quisera lhe exibir uma coisa.

A mancha escura e avermelhada, já quase preta, que havia na ponta.

-O que é isso?

-O que você acha?

Uma pausa tensa. Carlinhos prosseguiu.

-Ele... a coisa... veio atrás de mim logo depois. Tentou me agarrar. Não era humano. Eu tenho certeza. Eu acertei ela uma ou duas vezes. Tava desesperado. O medo dá asas e também força. Ele caiu.

-Peraí! Você quer me convencer de que aquela besteira era verdade?? Ah! Cai na real! A gente inventou aquilo!

-A gente não inventou, Jonas. A gente ouviu aquela história quando entrou no colégio – interveio Márcio, obviamente amedrontado. Um olhar repreensor de Jonas fulminou-o.

-E agora sabem que é verdade.

-É lorota! Você pensa que...

-Escuta aqui, espertalhão! – o tom de voz de Carlinhos quase os assustou – Acha que foi divertido ficar me esgueirando por aquele verdadeiro labirinto, sem luz e sem esperança de sair vivo, sabendo que tinha um monstro inconsciente junto comigo que podia acordar a qualquer momento e me estraçalhar!!?? Eu passei fazendo isso o dia inteiro, até achar outra saída, bem longe de onde vocês me deixaram... o lugar é enorme... é como se fosse, sei lá, outra dimensão, ou coisa assim. Aquele monstro pode ter vindo até de outro plano de existência!

-Que merda é essa que tu tá falando, nerd? Se isso fosse verdade, tu ia ter batido na cabeça dele na hora que caiu até desmanchar!

-Talvez você, que gosta tanto de machucar quem não pode se defender, 
fizesse isso. Mas eu tava com medo. E me senti abençoado pela sorte quando o monstro caiu. Saí correndo sem direção... e quando dei por conta, estava longe, e não queria voltar. Além disso... eu nem sei se aquilo tem cabeça. Pode ser que tenha o cérebro no estômago. Não era humano.

-Bom... e daí? Tu tá bem, vai pra casa.

-E deixar aquilo lá, pra pegar outra pessoa?

-Não é problema teu.

-Já foi problema meu, Jonas. E eu não gostei de ter que resolver.

-Bom... mas nunca foi problema meu!

-Ah! Não! Agora é!

-Como?

-Eu vou ser bem claro: ou vocês vêm comigo e me ajudam a acabar com a coisa, ou eu vou dedurar vocês. Vou dizer que me prenderam lá embaixo.
-Tu acha que eles não sabem que a gente apronta?

-Desta vez foi diferente. E eu posso piorar a história. Dizer que me bateram, me roubaram, ou fizeram até coisa pior. A escola já tá de saco cheio de vocês! Os pais de vocês têm grana, é verdade, mas os dos outros também, e se eu convencer a diretoria de que vocês são uma ameaça pros filhos dos outros ricaços, podem ter certeza que são chutados dali na mesma hora.

Jonas imediatamente agarrou Carlinhos pelo colarinho.

-Tu não ia ter coragem, seu bostinha!

-Eu morria de medo de ti, Jonas – disse Carlinhos com o mesmo sorriso peculiar – mas depois que eu encarei aquele bicho, tu não me assusta mais. É só um valentãozinho nojento de colégio que nunca vai ser nada na vida depois que crescer. Enquanto teus pais estiverem vivos, vai viver bem, mas depois... vai ter que limpar latrina pra poder comer!
Jonas afrouxou a pressão aos poucos, e o soltou com um safanão.

-Tá bom – resmungou – vamos dar uma olhada. Tá com a tua soqueira, Márcio?

-Sempre.

-Então tamos preparados. Vamos lá.

Apalpou o canivete no bolso e foi o primeiro a pular o muro.

 


IV

 

O colégio, durante a noite, tinha uma aparência ainda mais medonha. Apenas parar na frente daquela coisa disforme e imaginar todas as salas e corredores lá dentro, vazios e sem luz, e imaginar que algo pudesse se estar escondido ali, num lugar ideal para emboscar três jovens indefesos, já era assustador.

No instante em que se aproximaram de uma das janelas, a coisa ficou ainda mais insólita. Era uma janela do térreo, a mais próxima do pátio dos fundos cujo muro eles haviam acabado de pular. Como tal, tinha uma tela de arame reforçado para protegê-la, e também um alarme. A tela estava cortada, o vidro estilhaçado e, quanto ao alarme, era mais uma prova do talento oculto de Carlinhos.
O jovem se abaixou e mexeu numa caixa de ferramentas que deixara ali momentos antes, quando partira. Dali retirou uma lanterna potente e disse:

-Foi sorte ter topado com as coisas do antigo zelador no caminho. Eu não teria conseguido sair sem alarde. Mas a lanterna a gente só acende lá dentro, pra não chamar atenção.

Os três pularam. Carlinhos parecia, ao contrário de durante o dia, o mais tranqüilo. Acendeu a lanterna e foi guiando-os com segurança.

-Por onde você disse que tinha a outra saída?

-Eu não disse. Mas foi pelo refeitório.

-Ele é bem longe desse corredor.

-Se é, eu corri um bocado, antes de pensar num jeito de sair, mas a gente não vai por lá. Vamos entrar pelo mesmo lugar onde vocês me largaram.

-Por quê?

-É mais perto de onde o monstro caiu. Se a gente tiver sorte, ele ainda não acordou. Aí é só moer o bicho caído.

-E como ele é?

-Não deu pra ver. Tava escuro.

-Acho que é pura conversa. Quer nos assustar por vingança.

-E agora essa, Jonas. Além de tudo, você é covarde. Eu tenho pena de ti.

-Eu vou me cobrar por essa!

-Eu acho que não. Depois que você ver o monstro, a gente conversa...

-Ou então você é tão estúpido que acertou uma pessoa. Aí vamos ver quem é que vai se ferrar!

-Não era humano. Pode ter certeza.

Chegaram novamente à portinha esquisita, no fundo da escada, que, como tudo na escuridão, parecia maior e mais opressiva. A única luz era a da lanterna, que fazia o jovem magro e pálido ainda mais parecido com um fantasma.

-Faça as honras, quem tem a chave!

-Putz! – disse Jonas, fingindo desapontamento – A gente esqueceu! 
Acho que não vai ter como entrar!

-Eu sabia que você ia tentar essa, cagão – disse Carlinhos, rindo – mas tudo bem. Quem desativa alarmes elétricos não vai ter problema com uma fechadura de cem anos atrás.

Abaixou-se e trabalhou habilmente com um canivete pequeno e uma chave de fenda pequena que surgiram de um de seus bolsos, e a porta abriu num instante. Carlinhos saltou para dentro, e voltou-se para os dois colocando a luz sob seu próprio rosto. Os dois o fitavam, paralisados.

-Cavalheiros, sei que estão pensando em dar as costas e fugir. Por mim, está ótimo, mas já sabem o que vai acontecer depois, quando eu visitar a diretoria amanhã de manhã... se eu estiver vivo, porque eu vou atrás do monstro de qualquer maneira. E, se eu não voltar, tanto pior pra vocês.

Em silêncio, os dois o seguiram.

Lá, guiados pela lanterna, que tornava tudo no aposento subterrâneo tão visível à curta distância e tão insondável à longa, reforçando aquela impressão de labirinto infinito, não precisaram andar muito. A criatura estava caída a poucos metros da porta, quando a encontraram. Surgiu fazendo os dois que a a conheciam agora dar um pulo, atrás de uma muralha de escrivaninhas.
Se assemelhava a um homem, duas pernas, dois braços, uma cabeça. E inclusive estava vestida como um. Mas não era um homem. Saindo das mangas de uma camisa fora de moda estavam mãos nodosas, peludas e de dedos retorcidos e unhas tal qual garras, recobertas por uma pele calosa e cheia de vincos e pústulas, parecida com a de um cadáver. A cabeça tinha cabelos ressequidos e compridos, semelhantes a pelos de vassoura, e seu rosto estava virado para baixo, sobre uma poça escura de alguma coisa repugnante que ela deveria ter como sangue. Sob a camisa e sob a calça de linho, um corpo disforme, cheio de saliências tortas, podia ser percebido facilmente. Além disso, cheirava mal. Um cheiro de terra de sepultura. De animal atropelado. De necrotério. De biblioteca antiga e empoeirda. De coisas mortas, velhas ou esquecidas.

Com certeza, não era humano, e aquilo não se discutiria mais. O espectro do medo cravou as garras com força no coração deles, terror dissipando dúvida.

Mas, de qualquer maneira, estava inconsciente, ou morto. Um cadáver de um demônio ainda é um cadáver. E um demônio indefeso, ainda é alguém indefeso.

Márcio, que até então estivera calado, disse:

-Vamos acabar com isso de uma vez. Eu quero voltar pra casa ainda hoje.

Aproximou-se com calma. Jonas o seguiu ainda mais cauteloso. O canivete deu um estalo e a soqueira foi enfiada nos dedos. Márcio se ajoelhou ao lado do corpo, levantando a mão e mirando na nuca, preparado para o soco de sua vida.

-Que gozado... parece que eu conheço essas roupas...

Foi a última coisa que murmurou.

O soco de sua vida nunca foi dado. A coisa ergueu um braço e catou Márcio do pescoço, sufocando o grito de horror que a visão de seus olhos teria causado. Jonas virou-se dando um grito agudo de menina e se preparou para fugir dali.

-Corre, Cacá! O monstro tá viv...

Antes de entender o que o atingira, já estava no chão, com um baque surdo. Ergueu a cabeça latejante, com uma orelha sangrando e dentes quebrados e viu, segurando o pé de mesa com as duas mãos, Carlinhos a sorrir com aquele sorriso sarcástico, e percebeu que não era só sarcasmo, era ódio e prazer numa mistura raramente tão proporcional.

Duas mãos, semelhantes a tenazes em força, úmidas e geladas, fecharam-se em seus tornozelos e começaram a puxá-lo de volta. Não ouvia mais Márcio, e, a julgar pela força das garras aferradas em suas pernas, que haviam pego o companheiro pelo pescoço, já sabia seu destino. O rosto de Carlinhos deixava bem claro que ele não precisava temer nada, mas que para Jonas, implorar a ele seria inútil. Então Jonas apenas chorou.

-Pensa agora em todas as vezes que aprontou pra mim, seu merda! Morre pensando nisso! Valeu a pena?

Dali em diante, Carlinhos apenas assistiu. Já fizera a sua parte. A criatura teve o seu banquete. Refestelou-se com carne tenra e jovem. Uma gotinha de sangue respingou no rosto de Carlinhos. Na hora, ele nem percebeu, tão maravilhado que estava com o espetáculo de ver seus algozes, uma única e derradeira vez, transformados em caça. Depois disso, saciada, a criatura se levantou e se aproximou dele.

O rosto era indescritivelmente hediondo. Mas não havia o menor sinal de hostilidade. Abriu sua boca, semelhante à de um tubarão, e disse, com uma voz gentil de ancião:

-Obrigado. Eu precisava de comida já fazia tempo. Tinha medo de que não honrasse nosso acordo, mas agora sei que você é digno de confiança. Não me arrependo de tê-lo poupado.

-Foi um prazer. Não precisa de obrigados.

-Eu sabia que chegaria o dia em que não seria mais possível suportar a luz do sol e nem me passar por um homem. Cada um envelhece segundo a sua natureza, e imaginei que morreria de fome, quando não pudesse mais caminhar incógnito entre o rebanho e caçar aqueles cuja falta não é sentida. Você foi realmente muito bom comigo.

-Não se preocupe mais com isso. Eu sei como é ser diferente e viver se escondendo. Vou te ajudar sempre que você precisar. O mundo está cheio de valentões nojentos. Esta escola está cheia de gente odiosa. E desnecessária. Se depender de mim, você nunca vai passar fome. E ainda prestaremos um grande serviço à raça humana. Agora preciso ir pra casa... e pensar numa desculpa pro meu sumiço. Da próxima vez, eu te ajudo a limpar a sujeira.

-Eu já fiz isso milhares de vezes sozinho. Estou acostumado. Boa noite.

-Boa noite.

-Obrigado mais uma vez, meu jovem.

Apertaram as mãos, cúmplices. A mão do monstro, que era mais antigo que qualquer alma viva que freqüentasse aquela escola, fosse aluno, professor ou funcionário, tinha um anel peculiar, que qualquer olhar atento poderia reconhecer.

Carlinhos deixou o lar subterrâneo. Fez todo o caminho de volta e começou a andar pra casa despreocupado. Largou o pé de mesa, onde lambuzara melado do refeitório para impressionar aqueles dois, na primeira lata de lixo que encontrou. Talvez houvesse alguns fios de cabelo de Jonas grudados no melado.

Estava livre deles para sempre. E, enquanto caminhava, ia pensando em sua professora de química. Ele era um excelente aluno, como em todas as outras matérias, mas ela o odiava. Podia sentir a inveja que tinha de sua inteligência aguçada, da compreensão que ele tinha do que ela ensinava mais do que ela própria, com seus supervalorizados anos de experiência. Sabia que aquela mulher velha e infeliz se sentia ameaçada por ele. Podia sentir o medo, a inveja e a raiva muda que ela lhe dirigia. E a perseguição, velada, sutil, a que ela se dedicava contra quem tinha mais tempo, talento e potencial. Alguém cuja capacidade ela nunca teria. No entanto, como de praxe, ele nunca lhe fizera ou quisera qualquer mal.

Pelo menos até o momento.

-Agora, finalmente, você vai ter razões pra me odiar e me temer, professora Rita. Ah! Se vai!

O trabalho estava começando. Trabalho? Ia ser diversão pura! Era um sacrilégio pensar naquilo como trabalho.

Um instante antes de bater na porta atrás da qual seus amados pais o esperavam ainda acordados e preocupados, já com uma história perfeita para justificar o sumiço e apaziguá-los, sabendo que deveria poupá-los da verdade e cuidar bem deles no futuro, quando fosse rico e bem-sucedido, e eles estivessem velhos e cansados de trabalhar, disse para si mesmo:

-A vida tem um jeito estranho de ser justa.

E bateu na porta, cheio de esperança e serenidade pela primeira vez na vida.



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