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Contos - Enviado dia 4 de Abril de 2009

A Garota do Cemitério


O que você considera diversão?

Para Lelé, Pedrão, Mongo e Jorge, os quatro sentados na beira da calçada, com o carro de Jorge estacionado há dois metros de distância numa vaga para deficientes, diversão era quebrar regras e agredir. Não que qualquer um dos quatro fosse anarquista ou coisa assim, até porque um mundo sem regras seria extremamente chato para baderneiros como eles, posto que não haveria nenhuma ordem para perturbar.

Nenhum dos quatro podia dizer com certeza, e provavelmente a resposta a esta pergunta seria desprezo ou violência, quando é que brincadeiras marotas como roubar cones de trânsito, pichações e sujar residências alheias havia se transformado em arroubos de delinqüência pura e desarrazoada. O caminho que eles trilhavam aquela altura da vida, sendo Lelé, o mais velho, da idade de dezenove anos, entre brigas, espancamentos, uso de drogas pesadas e todo o tipo de violência covarde que a pouca imaginação dos quatro permitia, era furioso e alucinado. Qualquer pessoa sensata sabia que, para quatro adolescentes como aqueles, o fim estava próximo e seria implacável. No entanto, sempre fez parte dos requisitos para entrar nesse tipo de turma o total descaso com o futuro.

Jorge, provavelmente o mais cerebral do quatro, que odiaria admitir isso, achava que a coisa chegara até aquele ponto porque ninguém os detivera. Num mundo sem perspectivas, sem ninguém a indicar o certo e o errado, sem ninguém a puní-los, tudo seria permitido, meramente porque nada havia em contrário. E a violência sempre fez pessoas desesperadas e vazias se sentirem vivas e poderosas.
Foi quando Lelé, que era o líder da turma, gritou:

-Vamo nos mandar daqui. Esse lugar tá uma bosta!

Silenciosamente, os outros três se encaminharam para o carro. Pedrão ocupou o banco de trás, sisudo e aborrecido, ao lado de Mongo com sua habitual expressão de estupefação e dúvida. Era bem possível que Mongo estivesse em outro tipo de turma se ela tivesse chegado nele antes. Na frente ia Lelé, com o olhar de ódio dissimulado, por estar no banco do carona, e Jorge no volante. Quieto, tímido, hesitante.

Lelé andava de muito mau humor desde que, num racha, há dois fins de semana, destruíra completamente o seu carro e então vinha se sujeitanto à humilhação de andar na maquininha insípida de Jorge. Não era tanto o modelo do carro ou seu mau estado, mas o fato de que não era ele no volante, que era aquele cara de furão cheio de espinhas, considerado por unanimidade o mais covarde do grupo. Começaram a rodar.

-Pra onde, Lelé?
-Ah! Qualquer lugar! Essa noite tá tão animada quanto um cemitério!
-Ãhh... – principiou Mongo – mas a gente bebeu bastante e...
-Não tenta usar o cérebro, Mongo – disse Pedrão – tu é melhor com o estômago. Eu tenho um lugar que eu lembrei que a gente podia ir...

Ninguém disse nada por meio minuto. Até que Jorge, cuja auto-confiança crescera sensivelmente desde que se tornara o motorista da turma, disse, com uma voz trêmula:

-Onde?
-Pro cemitério.
Lelé soltou uma gargalhada.
-Vai virar gótico, viadinho?
-Olha quem tu tá chamando de viadinho! Eu não disse pra gente entrar lá, eu disse pra ir até lá!
-E qual é a diferença?
-Roda pra lá, Jorge, que todo mundo vai saber.
Jorge ficou indeciso. Se algum dia Lelé não fosse mais o líder, seria Pedrão.
-Anda, ninguém vai se arrepender.

Como Lelé não dissesse nada, absorto em sua própria autopiedade, o motorista guiou o carro naquela direção.

. . .

O cemitério ficava numa zona pacata da cidade, sem muitos moradores próximos, e era ladeado por dois terrenos baldios. O silêncio naquelas paragens, àquela hora de uma noite de outono, era quase perturbador. Um pesadelo para supersticiosos, sem dúvida, era o que estava estampado na cena.

Exceto por um detalhe. Havia uma parada de ônibus bem na entrada da necrópole.

Claro que, àquela altura da madrugada, nenhum ônibus passaria por ali, mas tirava um pouco do charme mórbido que este tipo de lugar evocava. E, ainda mais, se considerarmos que, no instante em que os quatro chegavam diante dela, havia alguém sob o toldo de proteção, que oferecia pouco abrigo contra a garoa fina e do nevoeiro que amortalhavam o lugar.

Era uma garota.

Uma figura singular, não apenas por estar esperando um ônibus às três da manhã, mas também pelo fato de usar cabelos longos e soltos, um vestido comprido e abotoado até a gola, e ser visível, daquela distância, a cruz de madeira no seu pescoço, que, de vez em quando, suas mãos procuravam, aflitas.

E era bonita. Muito bonita. Morena, lábios carnudos e sensuais, e um corpo voluptuoso que os trajes de religiosa fundamentalista não conseguiam disfarçar. E havia aquela expressão de inocência que, ao ser associada a um corpo que sugere luxúria, desperta paixões perturbadoras na maioria dos homens.

Os quatro estavam do outro lado da rua, estacionados, e mantinham os faróis ligados. Ela, aparentemente, não percebera sua presença, ou fazia questão de fingir isto.

-Ta aí, seus bunda-moles – disse Pedrão – não é uma beleza de se olhar?
-Para um pouco! – disse Lelé – Conhece ela? Como é que tu sabia que ela ia estar aqui?
-Tá legal, a história é a seguinte. Três noites da semana passada eu vim por aqui pra vir pra casa, a pé, depois de arrumar uns agitos no ônibus, e por causa deles, não é bom eu andar nele em certos horários.
-Qual é o cobrador que quer te matar? – gracejou Jorge.
-Cala a boca, seu bosta! Continuando, as três noites, mais ou menos por esse horário, eu vi a menina ali, parada, esperando o ônibus. Eu tava sozinho, e ela só me olhou, morta de medo.
-Mas... – disse Mongo, do seu jeito arrastado – como é que ela ia pegar ônibus a esta hora?
-Deve estar esperando alguém – disse Jorge.
-Ou então é louca – completou Lelé – e tu sabe mais alguma coisa sobre ela?
-Não. Nem perguntei. Mas que é uma gata, é, apesar do jeitão de crente.
-Pra mim ela é louca.

Houve um silêncio. Todos aguardavam. Foi Lelé que veio com a idéia.

-Tá na cara que é louquinha! Porque a gente não leva ela pra dar uma volta?
-Ela não ia querer, Lelé! Olha só o jeito dela – disse Jorge.
-Quem disse que ela precisa querer?

Em seguida se voltou para Pedrão, sorridente. Um sorriso que, normalmente, metia medo até mesmo nos companheiros.

-Pedrão, Mongo, os dois vêm comigo. Vamos dar um alô pra moça.

Pedrão sorriu de volta e saltou do carro no mesmo instante. Mongo seguiu Pedrão mais atrás, com passos mais lerdos e movimentos mais pesados.

Jorge principiou:

-Mas o que vocês vão...?
-Fica aí e espera, motora! – disse Lelé.
Os três surgiram da névoa diante da moça. Ela arregalou os olhos e encarou os três, agarrando imediatamente o crucifixo.
-Oi, princesa! – disse Lelé.
-Acho que o ônibus não vem... – resmungou Mongo com um sorriso.
Ela não disse nada. Ficou a encará-los, cada vez mais assustada.
-O gato comeu tua língua, princesa? – voltou a falar Lelé.
-Que pena! – disse Pedrão – Deve ser uma língua muito gostosa. Acho que tua boca deve ser melhor pra outras coisas, e não pra falar, né, gostosa?

Aos poucos, Pedrão e Mongo ficavam dos dois lados dela. Lelé estava na frente. Ela nada dizia, e seu medo parecia aumentar cada vez mais.

-Qualé que é teu nome, guria? – perguntou Lelé.
-Cristina.
Sua voz era doce e assustada.

-Cristina, o ônibus não vai passar por aqui tão logo. Esse lugar é perigoso. A gente pode te dar uma carona... tem sempre espaço pra uma gatinha no carro.
-Eu... – ela ofegava de medo – eu adoraria... mas não posso... se eu for... é errado uma moça da minha idade sozinha com três...
-Quatro – disse Mongo – mas acho que o Jorge não conta. He! He!
-Olha, eu realmente não posso.
-Um beijinho, quem sabe? – disse Lelé chegando mais perto.
-É pecado... eu acho que vou...
-Pega!

Mongo agarrou um braço e Pedrão o outro. Ao mesmo tempo, Mongo tapou a boca, sufocando um grito que não saiu. Logo depois da ordem, Lelé agarrou as pernas que se debatiam no ar e, rapidamente, carregaram Cristina para dentro do carro.
Jorge arregalou os olhos ao ver os dois ocupantes do banco de trás entrarem com a prisioneira entre eles. Lelé ocupou o carona. Quando Cristina quis gritar de novo, Lelé voltou-se e desferiu um tapa no seu rosto.

-Quieta!
-Por favor... não façam isso... eu não posso... se vocês começarem a ...
Outro tapa.

-Quieta, eu falei! Fica quieta que a gente só vai dar uma voltinha. Se tu for boazinha, tudo vai acabar logo e quem sabe a gente até te deixa na parada de novo, pra esperar o teu ônibus invisível. Agora, se fizer fiasco aqui no carro, eu te arranco os olhos, sua putinha.

-Não me diz que não tava querendo – disse Pedrão – sozinha, na rua a esta hora, só podia tá esperando macho! Agora eles chegaram.

-Toca pro barraco, Jorge – dise Lelé.
-Eu... eu não sei se...
-Anda! Faz o que eu mandei!

Jorge ficou parado por algum tempo. Lelé aproximou a boca do ouvido dele e disse:

-Quer ser tu no lugar da moça? Então vai logo.

O carro disparou.

O barraco era uma casa abandonada, que os quatro tinham tornado seu clube particular, onde levavam pó, prostitutas baratas e bebida frequentemente. Quando encontravam algum mendigo dormindo naquilo que considaravam seu território, era uma alegria a parte surrar o sujeito e jogá-lo para a rua, especialmente nos dias de chuva, quando este acontecimento era mais comum.

Mas, apesar do mau tempo, não havia ninguém na casa quando, pela porta balouçante, entraram Pedrão e Mongo com as mãos feito tenazes nos braços de Cristina, que tremia quase convulsivamente, e não ousava dizer nada.

-A gente já vai te aquecer, vadiazinha! – disse Lelé – Segura firme, que eu vou primeiro.

Jorge olhava, parado junto a porta. Já tinha visto eles fazerem aquilo uma vez, mas não tomara parte. Agora talvez o obrigassem, pois é sempre bom partilhar a culpa com todas as testemunhas presentes. Mas é verdade que não gostava muito daquilo. Não tinha coragem de contrariá-los em quase nada, e aquele tipo de diversão não era exceção, mas não gostava.

-Por favor... vai ser horrível...

-Não, vai ser gostoso – disse Lelé, arrancando a cruz de seu pescoço e agarrando a gola do vestido. Enquanto isso, Pedrão e Mongo a mantinham contra uma parede, pressionando firmemente seus braços contra os tijolos nus.

O vestido foi rasgado, revelando seios fartos e firmes, que Lelé começou a beijar, morder e chupar com violência, subindo em seguida para o pescoço. Ao mesmo tempo, metia a as mãos sob o a saia do vestido.

-Ih! Tua religião não permite calcinha? Melhor pra mim...

As mãos se movimentavam. Uma delas saiu de baixo da saia e se dirigiu ao zíper da calça. Foi quando Jorge viu acontecer uma coisa estranha. Cristina, que, a esta altura, deveria estar chorando, começou a suspirar com vívida satisfação, e, embora seus braços estivessem presos, começou a retribuir os beijos de Lelé. Esticou e abriu as pernas, deixando-as a mostra, revelando coxas musculosas e bem torneadas e, aproveitando que estava segura pelos braços, passou-as em torno dos quadris daquele que devia ser seu agressor.

-Tá gostando! – disse Pedrão, com um sorriso – Eu disse que ela queria macho.

Quando Lelé, surpreso, olhou-a nos olhos, ela apertou-o junto dela com as pernas, que revelaram uma flexibilidade força tremendas, e beijou seu pescoço com voracidade. Ele sorriu, satisfeito.

Em seguida, começou a secar.

Pedrão e Mongo viram o amigo desmanchar o sorriso para uma expressão de idiota, vazia, e viram a pele de Lelé ficar pálida como a de um cadáver, ao mesmo tempo em que Cristina fazia um barulho gorgolejante e o impedia de se libertar com a chave de pernas. As veias do pescoço da moça pulsavam e a pele de Lelé começava a murchar, ficando parecida com um pergaminho seco. Ele já não tinha mais nenhuma vida nos olhos vazios e murchava inerte. Quando os outros dois se recuperaram do choque, tentaram se afastar, mas agora era ela que segurava seus pulsos com mãos mais fortes que as de um estivador.

-O que é que tá acontecendo?! – disse Mongo.
-Me larga! Cadela! Bruxa! Me larga!
-Jorge, faz alguma coisa!

Porém, Jorge só entendeu o que estava acontecendo quando a múmia ressequida que fora Lelé caiu no chão, e Cristina deu um longo suspiro, como uma pessoa que acabou de beber uma imensa caneca de água sem parar. Aliviada, mas não satisfeita.

Então Jorge desatou a correr. Não queria saber o que tinha acontecido, mas também não queria permanecer ali.
Mongo se soltou, ou foi solto, e Cristina empurrou Pedrão, que gritava histericamente, para o chão, jogando-se sobre ele em seguida. A última coisa que ele viu foi o rosto sensual e belo de sua suposta vítima lambendo os lábios e se aproximando para o último beijo de sua vida.

Jorge havia chegado ao carro, estacionado na rua. Saltou para o volante e deu a partida.

-Jorge, me espera! – gritou Mongo, logo atrás.
-Te fode! Não mandei pegar ela! – disse Jorge, mostrando o dedo médio e arrancando.

Mongo ficou subitamente sem reação. Ouviu um ruído suave, como uma rajada de vento muito leve passando por galhos de uma árvore delicada atrás de si. Virou-se e gritou pela última vez quando uma figura alada e negra, quase do seu tamanho, jogou-se sobre ele.

Jorge não pensava, dirigia.

Não queria imaginar o que havia acontecido. Nem atribuir explicações. Nem se lembrar. Sua parte racional já começava a forjar a história que contaria a todos, se lhe perguntassem o que acontecer aos seus três amigos. Eles havia seqüestrado uma garota e obrigado ele a dirigir até o barraco. Depois ele fora embora, sem saber o que tinham feito com ela. Com o tempo, até ele iria começar a acreditar naquilo.

As batidas do seu coração foram recuperando o ritmo normal enquanto ele se aproximava da casa onde vivia com a avó. Uma casa simples, porém limpa e confortável. Ao descer do carro, dentro da garagem, percebeu o quanto as noites ali eram melhores que as no barraco.

No íntimo, sentia-se feliz. Livre. Sobrevivera. Ele não tinha tentado estuprar ninguém, e tinha sido contra, embora não tivesse se esforçado muito. Sem os três por perto, acabaria se endireitando, levando uma vida de bom rapaz. Deixando as farras e a delinqüência de lado.

Talvez tivesse sido um sinal dos céus. Uma segunda chance, pensava ele ao entrar no quarto e fechar a porta.
Acendeu a luz.
Gritou.

Cristina estava em pé, diante dele, o vestido rasgado, os seios a mostra, o direito coberto por uma mancha de sangue que começava em seu lábio inferior. Nada mais daquela pose tímida de crente, nem do medo, nem da vergonha. Olhando para aquele rosto que parecia embriagado de uma luxúria demoníaca, ninguém pensaria que, há pouco tempo, ela usara a palavra “pecado” com a conotação de algo a ser evitado.

-Vocês não deviam ter me provocado... – disse ela com uma voz lânguida.

Jorge começou a chorar.

-Não vale! Eu não te fiz nada! Eu nem te convidei pra entrar... nos filmes, se a gente não convida pra entrar... você não vem...
-Eu estava agarrada no teto do carro. Aí você me trouxe pra dentro.

-Mas eu nem ia fazer nada contigo! Me deixa em paz! – lágrima sinceras rolavam-lhe pelos olhos – Juro que eu não ia fazer nada! Não me mata!

-Tem coisa pior que a morte... Não dá pra evitar. Eu estou com tanta fome...

Saltou em sua direção.

. . .


A avó de Jorge, que tinha o sono pesado e não acordara com seu grito, acordou com o barulho da porta de madeira do quarto se estilhaçando e sendo arrancada do marco. Sentou-se, assustada, procurando os chinelos e tateando os óculos em meio à escuridão.

-Que foi isso?! – berrou com sua voz rouca – É tu, Jorge?! Tá com alguém aí?

Silêncio. A velha sentiu mais medo. Pegou o telefone e, percebendo que tinha linha, discou para a polícia, deu seu endereço e disse que tinha estranhos na casa. Aconselharam-na a não sair do quarto e trancar a porta.

Mas a velha era extremamente curiosa, e, pé ante pé, caminhou para fora, fazendo menos barulho que uma folha de seda caindo. Quase desmaiava em seguida.

Seu neto estava morto, diante da porta do próprio quarto, cuja madeira estava em pedaços. Sua garganta estava estraçalhada e seu rosto congelara num grito mudo de horror.

Sua mão direita agarrava um grossa lasca de madeira, e sobre seu peito estavam espalhadas cinzas e os farrapos de um vestido.

Três meses depois.

O delegado se chama Zeni. É um descendente de italianos prático, objetivo e incisivo. Ele está diante de uma coisinha para a qual seus métodos são ineficazes.

É manhã. O ar tem cheiro de terra molhada.

O cemitério está isolado por um cordão da polícia, e a perícia age o melhor que pode, os guardas. Sobre um túmulo de pedra está o enigma. Uma jovem, ou algo que pode ser uma jovem, vestido com roupas de festa e algumas bijuterias. Mãos ao longo do corpo e sem sinais de violência aparentes. Exceto pelo fato de que ela se parece com uma ameixa seca.

Um dos policiais fala com Zeni. Aquele que ele poderia considerar seu braço direito.

-Dei uma conversada com o senhor que mora na casa aí da frente. Aposentado. Disse que viu um cara largar o corpo aí.

-Tem certeza de que já era um corpo?

-Eu não. Ele tem. Disse que estacionou com um carro aí na frente, desceu com a moça nos braços, segundo ele já estava até meio dura. Depois cruzou os portões de volta, entrou no veículo e partiu.

-Que carro era? Como é que era o cara?

-Não deu pra ver, segundo ele. Só que era bem velho, estava caindo aos pedaços e tinha película nos vidro. Também não deu pra ver o cara direito, porque tava escuro e chovendo na noite passada. Só disse que parecia alguém moço. Baixo, magro e em forma.

-Um moleque marginal dirigindo uma banheira com película. Metade dos merdas dessa cidade! E a perícia, o que é que diz?

-Até agora? Sem impressão digital. E parece que ela foi colocada aí, mesmo, não foi morta no local. Que nem a outra, há uma semana. Aliás, aposto dez pilas contigo que a autópsia vai dar a mesma coisa: hemorragia.

-É... só que qualé a hemorragia que deixa a pessoa... desse jeito?

Noite do mesmo dia.

Saída de uma boate.

Uma garota se desgarra do grupo com que estava e começa a caminhar sozinha. Começa a chover, e ela maldiz a própria sorte.
No meio da chuva surgem os faróis de um carro. Ela olha para trás. Que estranho, pois é igualzinho ao carro que ela viu, há um mês, na casa de uma velhinha solitária que, segundo amigos disseram, guarda por recordação do neto falecido. Mas, segundo o que lhe disseram, a velha era louca, e nunca aprendera a dirigir. Um carro velho e malcuidado.

O carro encosta do lado dela. A chuva está ficando pior. Os vidros do carro são negros e não permitem enxergar nada. Mas a porta do carona se abre e ela pode ver uma única pessoa lá dentro. Um adolescente, como ela, magro, baixo, narigudo e cheio de espinhas, de uma palidez impressionante, e um aspecto de doente. Ele está sorrindo, é pura cortesia, e há algo de estranhamente magnético no seu sorriso.

-Oi. Quer uma carona? Tô indo pro mesmo lado...

Ela hesita. Mas ele parece bem simpático. Além disso, está sozinho e é mirrado. Se tentar alguma besteira, ela acha que pode muito bem se defender.

-Brigada. Vou aceitar. Qual é o teu nome? – diz entrando no carro, já cativada.

-Ah! Me chama do nome que tu quiser. Não tem importância mesmo.
A porta se fecha e o carro começa a andar, desaparecendo em meio à chuva de inverno cada vez mais forte.

...fim...

 



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