Uma gripe assolou a europa no início do século XX, concomitantemente à primeira guerra mundial. Conhecida como Pandemia, por causa da sua ação que mais tarde atingiria todos os continentes, ela inicialmente disseminou-se nas frentes de batalha, arrasando unidades inteiras de brigadas dos mais diferentes exércitos. Num segundo momento atingiria as cidades por onde os soldados haviam circulado. Embora as autoridades sanitárias brasileiras julgassem que o país estaria imune a ação do vírus por conta da longa travessia marítima, o fato é que em meados de 1918, a doença que matou em poucos dias 25 milhões de europeus, e outras dez milhões de pessoas nos outros continentes, aportaria também no Brasil trazida pelos soldados que compunham a tímida frota nacional, a Rio Branco, composta na sua maioria por marinheiros noruegueses. Mas foram os poucos brasileiros que, ao desembarcarem aqui, trouxeram a peste...
Detectada inicialmente em Recife, na região do porto, em poucos dias alguns casos foram identificados em Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro. Restrita ao litoral, em pouco tempo subiu a serra e foi fazer vítimas também a quem jamais estivera no mar, quiçá em zona de batalha.
Helenita Cunha Bento Almeida, uma jovem de 13 anos prometida em casamento ao filho de um barão da cana de açucar de Conceição do Macabu, no Norte Fluminense, Delmiro Antunes Lopes Pinheiro, foi uma delas. Casamento marcado, ela passou todo o ano de 1919 ajudando a mãe, tia, madrinha e criadas a coser suas roupas, bordar vestidos e anáguas, com vistas ao casamento que prometia ser a maior recepção da cidade desde a passagem de Dom Pedro II por aquelas terras cerca de meio século antes.
O casal, lindo como uma noite de luar, segundo os registros da época, era a síntese do amor, da paixão, compreensão. Se havia na região algo que simbolizasse prosperidade, saúde e prazer, seria suplantado pela existência do casal Helenita e Delmiro.
A festa fora anunciada um ano antes pela cidade, região circunvizinha e nas badaladas Campos dos Goytacazes e Macaé. Os convites direcionados aos convidados do Rio de Janeiro, para garantir a pompa, seguiram em carruagens, embarcações marítimas e finalmente em lombo de burro e cavalo. Embora não houvessem mais escravos e nas grandes metrópoles o automóvel já fosse uma realidade, naquela região, onde predominava a elite rural, as manias do século XIX é que garantiam os ares de pompa e fidalguia...
Prova disso é que nas vestes, manifestações artísticas, culinária, jeitos e trejeitos, o chique e moderno era copiar o passado. Só ele permitia aos noivos e familiares o glamour da ostentação.
O fato é que uma semana antes do casório a peste chegou a Macabu. Os negros, herdeiros da escravidão, foram as primeiras vítimas. E tão rapidamente ocorreram as mortes que os corpos foram levados para o cemitério do centro da cidade, depositados em covas simples e sem direito a encomenda por ritual católico ou pagão.
Quando o povo, por ignorância, achava que apenas os negros, sabidamente mais fracos e doentes por conta da herança social, seriam os únicos acometidos, eis que Helenita tem um súbito mal-estar que evolui para a morte em menos de 24hs. A doença, para espanto geral, levava a óbito antes mesmo de diagnosticá-la.
Seguiu seu corpo em um cortejo só comparável ao de Motta Coqueiro, o último condenado a morte no Brasil, na mesma cidade de Conceição, meio século atrás.
A comoção e a tristeza tomou conta de toda a região. A bela e quase divina Helenita, com vocações para santa, obviamente, havia sucumbido a uma tragédia para qual ninguém se preparou. Seu corpo, para sorte da família ou ironia do destino, ocuparia a última cova ainda disponível no cemitério central.
Profundamente abalado, Delmiro trancou-se em seu silêncio, no escuro do quarto na fazenda do pai, em Campos, e de lá só saiu morto. Dois dias depois. Ele também fora contagiado pela peste e, como uma perversidade do destino, terminou por inaugurar o novo cemitério, localizado dois quilômetros fora da cidade, distante portanto de onde fora guardado o corpo de seu grande amor.
Passada a febre, que nos livros de história é caracterizada por partir tão rapidamente quanto chegou a determinado lugar, as lembranças do amor eterno e invejado de Helenita e Delmiro retornaram à memória popular. E cresciam cada vez mais embora no tempo ficassem mais e mais distantes. Mas justifica-se. Não foram duas, três ou quatro dezenas de pessoas que afirmaram ver um raio de luz seguir noite adentro da área do cemitério rural e, como um cometa, rasgar a escuridão até a praça central da cidade. Ali, luz de intensidade igual encontra ainda hoje, quase um século depois, a representação da vida de Delmiro. E as luzes dançam a mais bela valsa tal e qual teria dançado o casal se a mais badalada festa de casamento de Conceição de Macabu tivesse se realizado.
Os moradores, portanto, afirmam que o encontro até hoje se dá. Sob a luz do luar da bela Conceição de Macabu.
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Robson Closue | 11 de Fevereiro de 2010 | Escreva para o autor do comentário Assine agora!
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Gostei ! Historia muito bem narrada.Daria um belo filme!!!
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Thiago Kül | 17 de Fevereiro de 2010 | Escreva para o autor do comentário Assine agora!
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Muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuiiiiiiito lindo,o amor realmente nao tem limites ateh entre mortos,todos tem direito a amar.
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sandro luiz trevisan | 15 de Fevereiro de 2010 | Escreva para o autor do comentário Assine agora!
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Bom,a estória é linda, claro; mas, o que achei melhor, foi que pelo menos os dois morreram praticamente quase juntos, poucos dias após a morte do outro e não sentiram a dor da saudade por muito tempo.
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Jay | 15 de Fevereiro de 2010 | Escreva para o autor do comentário Assine agora!
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Olha, eu morei nessa cidade desde meses de idade, e nunca ouvi falar nessa história (o que não significa que não possa existir, claro). Estudei muitos anos nas duas escolas que atualmente ficam em cima desse cemitério, e váááárias histórias fora ouvidas e até presenciadas. Inclusive, há uns 14 anos atrás, foi feita uma obra na tubulação de esgoto dos colégios, e foram encontrados muitos pedaços de ossos, e até alças de caixões. Era um cemitério indígena que com a colonização virou cemitério de todo mundo (hehe). "Ficava" atrás da Igreja Matriz, no centro da cidade. Recentemente foi embargada uma obra, acho que de uma biblioteca, no local justamente pela descoberta de esqueletos.
A cidade tem muuuuuitas lendas... É uma delícia ficar ouvindo histórias engraçadas, sinistras e algumas vezes bem tristes.
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toni ferreira | 13 de Fevereiro de 2010 | Escreva para o autor do comentário Assine agora!
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estoria de amor . sobreamor.org .com.br
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manu | 12 de Fevereiro de 2010 | Escreva para o autor do comentário Assine agora!
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nem li tbm ;s mas pelos comentarios parece ser bom :}'
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