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Lendas Urbanas / Histórias Incríveis

No interior de Pernambuco


Manoel Henrique

Enviado por Manoel Henrique em 7 de Agosto de 2008. Escreva para o autor

Sou uma pessoa que gosto muito de aprender algo de novo e interessante, por isso o meu interesse nesse site, já que fui recomendo a entra aqui


Fato ocorrido em um interiror daqui de PERNAMBUCO
























Depois do Enterro

 


Chama-se Norberto o coveiro que me relatou este curioso episódio. O nome da
cidade do interior onde tudo aconteceu, ele me pediu para não revelar. Mas posso
adiantar que é um município pequeno da Zona da Mata de Pernambuco, cercado por
vastos tapetes verdes de cana-de-açucar. Em 1975, meu informante ainda era
aprendiz no ofício funerário. E, como todo aprendiz, foi incumbido pelo
“coveiro-mor” das tarefas menos nobre. Nunca participava do sepultamento de
morto rico, quando surgiam gordas gorjetas. Estava sempre ocupado com a
conservação da necrópole e vez por outra é que enterrava algum indigente.

 

 

Numa tarde quente de dezembro, tiraram Norberto de um cochilo sob a
proteção de um frondoso jambeiro para um desses trabalhos maçante. Num bilhete
escrito a mão, o prefeito solicitava tratamento adequado para o corpo daquela
pobre senhora levado por funcionários da municipalidade – eleitores fiéis eram
sempre recompensados de alguma forma, sabia o coveiro. Enquanto abria a cova,
ouviu de um dos barnabés a história da finada. Dona Deda morava num das tantas
casinhas da periferia. Negra miúda de aspecto centenário, não era de muitas
palavras, mas tinha o respeito da comunidade. Vivia sozinha há décadas, não
tinha parentes e não sabia precisar a idade. “Minha mãe se criou na senzala do
engenho”, repetia ela aos curiosos. Ficava horas a fio pitando um velho
cachimbo, sentada num banquinho e fitando o horizonte com um olhar
meditativo.

 

 

Um dia os vizinhos sentiram a falta de Dona Deda na sua pose habitual. De
dentro da casinha trancada, ela não respondeu aos gritos e palmas. Um vizinho
mais afoito arrombou a porta frágil e encontrou a velhinha deitada na cama.
Estava quieta, serena, sem respiração. Um descanso merecido, todos concordaram.
Morrera durante o sono, um final digno para os justos. Alguém mais solidário foi
pedir ao prefeito um enterro decente, mas ninguém quis acompanhá-la na
derradeira despedida.

 

 

“Velha valente”, pensou o coveiro. “Penou só até na hora da morte”. Por
causa do enterro de Dona Deda, Norberto teve que ficar até mais tarde no
cemitério. Já era noite quando acabou todo o serviço de limpeza do lugar.
Lembrou o longo caminho de volta para casa. E, com a ajuda de um velho cobertor,
aconchegou-se ao lado do jambeiro amigo. Lá para as tantas, o coveiro foi
acordado por um gemido distante, abafado. Mesmo arrepiado de medo, acompanhado
de uma vela juntou forças para procurar a origem do ruído.

 

 

As pernas tremiam ao caminhar entre os túmulos e o barulho estava ficando
cada vez mais perto. Apurou a audição e constatou que o lamento vinha do lote da
nova moradora. Pensou em correr, mas falou mais alto o profissionalismo: coveiro
frouxo morre de fome. Repetindo velhas orações, cavou com rapidez. Depois da
primeira camada de terra, viu surgir uma mão suplicante. Com o berro de horror
travado na garganta, puxou para fora da cova a velha que parecia tão viva quanto
ele.

 

 

E Dona Deda foi logo tirando os chumaços de algodão do nariz e
resmungando:

 


- Vôte! Que agonia desse povo. É um vexame pra fazer as coisas! Num tá
vendo que não chegou a minha hora...

 


E saiu arrastando os pés até desaparecer na escuridão.

 


A notícia da ressurreição foi levada pelo vento e corria a boca pequena
em cada esquina da cidadezinha. Norberto nem teve tempo de contar a ninguém,
pois todos foram ver Dona Deda pintando cachimbo sentada no banquinho.

 

3 Comentários para "No interior de Pernambuco". Deixe o seu

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