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Lendas Urbanas

O Amigo de infãncia


Breno

Enviado por Breno em 13 de Março de 2004. Escreva para o autor


Eu tinha um amigo imaginário. Vocês devem saber do que estou falando. Não era um garoto de verdade. Mas era com quem eu conversava, para quem contava meus pequenos segredos de menino de seis anos. Coisas de filho único, dirão aqueles que me conhecem. Meu amigo chamava-se Quinca. Não lembro como me surgiu esse nome. Mas era o nome dele, com certeza. Encontrava-o quando ia à casa da minha avó Berta. Minha mãe estava sempre ocupada trabalhando. Meu pai já havia morrido. Então era na casa da minha avó que eu ficava a maior parte do tempo. As tardes no bairro da Boa Vista pareciam eternas. Rua das Ninfas. O nome por si só já inspira. Recife tem ruas com nomes lindos e em alguns casos, bem melancólicos. Rua da Soledade, Angustura, Saudade, Aurora. Manuel Bandeira já escreveu tão bem sobre esses nomes que eu prefiro voltar às lembranças da minha infância. Picolé, jambeiro, o vendedor de cavaquinho e as conversas intermináveis com meu melhor amigo, Quinca. Ninguém o via, claro. Só eu tinha o privilégio. Quinca tinha o cabelo loiro e liso, um corte que na época chamavam "meia cabeleira". Sempre o via com a mesma roupa, uma camisa branca de manga comprida, calça também branca, cinto, uma gravatinha borboleta. Parecia estar sempre indo a uma primeira comunhão. Na época achava absolutamente normal que meu amigo sempre usasse a mesma roupa. Quando tinha uns nove anos, minha avó morreu. A casa foi vendida. Acabou-se uma fase da minha vida. E também a minha amizade com Quinca. Lembro de passar na frente da casa com minha mãe de carro e, ao olhar para o seu interior, ver meu pequeno amigo brincando. Algumas vezes ele me acenava com cara tristonha. Quando cheguei à adolescência passei a achar tudo aquilo ridículo. Minha mãe gostava de contar para meus amigos e namoradas sobre meu amigo de infância, e me deixava morto de vergonha. Cheguei a evitar a Rua das Ninfas. Quando era inevitável, virava a cara ao passar pela casa de Vó Berta. Já adulto e casado, fui ao escritório da empresa do plano de saúde, para solicitar o reembolso das despesas com o anestesista do parto cesariano do meu primeiro filho. Para a minha surpresa, a seguradora ficava na casa que havia sido da minha avó ! Me emocionei ao entrar na casa e ver que ela pouco havia mudado. Foi estranho perceber que a sala agora era usada por clientes em espera. Sentei para aguardar a minha vez. E de canto de olho vi um rosto a me observar: Um menino de ar sorridente. Achei estranhas as suas roupas, totalmente fora de moda. Ele estava em pé e me olhava fixamente, a ponto de me constranger. Não parecia ser parente de ninguém, não falava com as outras pessoas, apenas me fitava e ria com sincero contentamento. O tempo ia passando, e eu me angustiava com a cena. Finalmente chegou a minha vez de ser atendido. Ao sair, percebi que o garoto ainda me observava. Passei rapidamente por ele. Ao chegar à calçada um arrepio me percorreu a espinha. O menino era Quinca ! Meu amigo de infância, companheiro de tantas tardes ensolaradas na Boa Vista. Continuava um garoto, as mesmas roupas, o mesmo sorriso. Pensei em voltar, mas tive medo. Medo da minha reação, da certeza que eu tinha de que agora tudo havia mudado. Eu era um adulto, e aqueles dias felizes nunca mais voltariam. Ficara apenas um menino, um espectro, que tomava conta daquela casa e de todo aquele passado.

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