Olá caro leitor. É um prazer escrever-lhe aqui.
Eu tinha apenas dez anos quando minha vida mudou completamente. Pode ser exagero afirmar algo assim, mas hoje eu sinto isso. Nessa fase de minha vida eu ia muito na casa de minha avó, brincar com amigos da rua. Eu adorava, pois era a semana inteira de aula, nos fins de semana eu descarregava toda minha energia nas brincadeiras. Gostávamos principalmente de jogar bola, até hoje tenho uma paixão especial por futebol, mas isso é irrelevante. Certo sábado à tarde, não me lembro exatamente, estava brincando com meus amigos de futebol. Durante a brincadeira saiu um velho de uma casa vizinha, nós dizíamos que ele tinha pacto com o demônio. Ele vivia só e mau saía de casa, não falava com ninguém. O velho saía e nós nos escondíamos, todos espiando aquele velho manco caminhar pela rua sem rumo. Quando ele desaparecia de vista nós corríamos até a casa dele e ficávamos escutando. Às vezes, alguma coisa fazia barulho lá dentro e nós corríamos pra bem longe. Neste sábado, a bola foi parar na varanda da casa dele, e claro, eu tive que ir buscar. Eu era o mais novo da turma. Todos ficaram me olhando e eu caminhava olhando para trás. Era pra mim um caminho conhecido, porém desta vez estava sozinho. Pulei o portão da casa, que era baixo, caminhei e encontrei-a. Só que nesse momento o velho dobrava a esquina e vinha em minha direção, para sua casa. eu fiquei desesperado, imaginei o que minha mãe faria comigo se descobrisse que pulei na casa de alguém. Ele entrou e me olhou, ali estava eu, indefeso e assustado. Ele veio até mim, colocou a mão no bolso e tirou uma medalinha de pescoço. Estendeu-a para mim e eu peguei, foi um gesto automático de minha parte, apenas peguei. Então, sem querer perguntei o nome dele, ele não me respondeu, apenas me olhou. Tirou um caderninho do bolso e escrveu algo, lá estava o nome dele, Fábio. Eu não tinha entendido ainda, mas ele era mudo. Escreveu em seguida que era para eu ir embora dali, eu fui e não olhei pra trás. Depois meus amigos riram de mim, e eu fiquei sem entender nada. Os dias se passaram e eu continuei com minha vida, não contei pra ninguém sobre a medalinha. Numa tarde eu estava indo para a padaria com meu primo, a pé. No fim de uma rua vinha um homem gritando e gesticulando em nossa direção, logo achamos que era louco. Ele já estava perto quando me olhou nos olhos, correu em minha direção e me empurrou, eu caí de costas e gritei. Ele veio pra cima de mim, mas de repente parou, me olhoue começou a chorar. Ele se levantou e ficou chorando e gritando: "Você não! Você não!". Então as pessoas da rua o imobilizaram, e me ajudaram. Daí o resto foi resolvido por minha família, problemas de adultos. Mas eu percebi que esse homem só parou de me atacar quando olhou a medalinha que havia pendurado no pescoço. Uma semana depois eu fui para casa de minha avó, e queria principalmente encontrar Fábio, aquele velho misterioso. Fui até sua casa, mas para minha surpresa já não tinha ninguém morando naquela casa. Eu nunca contei isso pra ninguém, mas hoje não tenho mais motivos para esconder. Só sei que naquele sábado minha vida mudou completamente. Tenho a sensação de que nunca mais verei esse homem novamente. Mas para mim, o mistério sempre continuará. Onde quer que esse homem esteja, sou muito grato.
Até mais!
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