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Lendas Urbanas

o outro lado da porta


Péricles de Assunção

Enviado por Péricles de Assunção em 19 de Julho de 2005. Escreva para o autor


O OUTRO LADO DA PORTA O que vou contar a vocês aconteceu comigo há vinte anos atrás. Conjugada a minha casa é um terreiro de candomblé dirigido por minha mãe, que também é proprietária de outras casas que se estendem até o final da rua. Na esquina havia duas casas que faziam parte de uma vila muito antiga e essas duas primeiras casas pertenciam a minha mãe, atualmente não existem mais. Os quintais dessas casas se encontravam com o quintal do terreiro e o muro que limitava os quintais havia caído o que nos permitia ver os fundos das casas velhas, um cenário tenebroso. Dessas casas se contava muitas histórias, pois como eram muito antigas, muitas famílias havia passado por elas, com muitas histórias de mortes. Um tempo em que os defuntos eram velados nas casas. Eu mesmo cheguei a acompanhar o velório de uma amiga nossa que falecera de leptospirose, um espetáculo pra lá de bizzarro. Então alguns fatos estranhos começaram a acontecer, em plena luz do dia, mas sempre no quintal do terreiro. Uma vez estava eu lavando alguma coisa no lavador do quintal e percebi alguém me observando pelo combogó do banheiro, pois a cozinha e o banheiro eram desligados da casa, e achei que seria minha irmã brincando, disse alguma coisa a ela e me despreocupei passado alguns minutos como ela não saia fui verificar constatando que não havia ninguém no banheiro. Outras pessoas sofreram experiências parecidas, oque somente ficamos sabendo depois. Uma noite de sábado minha mãe havia saído com algumas pessoas do terreiro, meus irmãos nas casas das namoradas e só ficamos eu minha irmã mais velha, que morre de medo de espíritos, e meu pai que dormia um sono profundo. Assistia-mos a um filme na tv quando ouvimos sons que vinha do terreiro e lá aquela hora não havia ninguém, já estavam todas as portas fechadas. Nos olhamos assustados. Com curtos espaços de tempo, os sons paravam e retornavam, mas não dava para identificar a origem. Só sabia-mos que vinham do terreiro. Se fez um espaço mais longo de silêncio e procuramos nos concentrar no filme de repente um baralho muito forte encheu nossos ouvidos, parecia que alguém estava apanhando metralhas com uma pá, todos os sons que vinham do outro lado da parede dava a entender que alguém estava construindo alguma coisa. O outro lado era o salão onde eram feitas as festas para os Orixás. Minha irmã entrou em pânico, então corri para acordar meu pai, lhe disse oque estava acontecendo e ele sem nem mesmo abrir os olhos, disse que com certeza eram as entidades da minha mãe, e voltou a dormir. Ele já era muito idoso, médium, kardecista, porém a idade não permitia mais que ele trabalhasse no centro que freqüentou a vida inteira. Eu e minha irmã, respiramos fundo e tentamos manter o controle, afinal fosse o que fosse tinha-mos a proteção de Deus e das nossas entidades. Mas eu era muito novo e deixei que o medo vencesse a fé. Diante daquilo tudo foi difícil manter o controle. Sons de pessoas andando apressadas, pás retirando metralhas, tijolos caindo, foi horrível! Mas mesmo assim decidi abrir a porta que fazia comunicação com as duas casas me enchi de coragem, peguei a chave e me dirigi a porta. Minha irmã não concordou, mas eu precisava ver oque estava acontecendo do outro lado, - e se fosse ladrões? Porém eu tinha certeza que não eram simples ladrões. De repente toda aquela barulheira cessou, o silencio era pesado quase palpável, quase dava pra ouvir as batidas do meu coração. Estaquei no terraço diante da porta fechada, minha irmã atrás de mim, ouvia a sua respiração, me aproximei lentamente e encostei o ouvido na porta, na esperança de ouvir algo familiar, uma brincadeira talvez. Meu ouvido parecia uma ventosa colado na porta, baixei os olhos para a fechadura e lentamente conduzi a chave, eu iria abrir, repetia para mim mesmo quando uma pedra espatifou-se contra a porta e tive a impressão que meu ouvido tinha estourado. Recuei bruscamente quase derrubando minha irmã que gritou apavorada, pedi para que ela se controlasse, se naquela época existisse telefone celular iria ser de grande valia, não tinha-mos como falar com nossa mãe. Minha irmã sugeriu que acordássemos meu pai de qualquer jeito, concordei sabendo que não iria adiantar nada, voltamos para a sala a televisão ainda estava ligada, olhei penalizado por estar perdendo o filme quando a tela escureceu de repente e com ela toda a sala, parecia mentira mas acabou a energia. Estávamos mergulhados nas trevas, minha irmã segurou no meu braço e foi ai que vi que sua mão estava gelada e trêmula. Ficamos parados por uns segundos, os sons do outro lado retornaram, agora mais frenéticos e ameaçadores. Minha irmã me puxou para o terraço e disse que iria para a casa da vizinha e só retornaria quando nossa mãe chegasse. Abrimos a grade e saímos para a rua, eu achei melhor ficar na calçada esperando, e deixei-a ir. Minha irmã nada contou a vizinha, usou como desculpa a falta de luz. E realmente somente entramos quando nossa mãe chegou. Todos os sons haviam cessados. Contamos a ela oque havia acontecido, ela me pediu a chave da porta de comunicação e sem exitar abriu-a, olhei por cima do seu ombro e pra minha surpresa estava tudo limpo, sem metralhas, nem pás, nem mesmo a pedra que ouvira chocar-se contra a porta, nem um vestígio, foi incrível. Corremos toda a casa, com mamãe na frente, verificamos todos os cômodos e nem um sinal dos visitantes. Daí minha mãe começou a falar no que poderia parecer, para os leigos ou céticos, sozinha, mas na verdade ela estava cobrando uma atitude dos sentinelas invisíveis do terreiro, denominados: Exus. Pois os intrusos haviam passado dos limites. Naquela noite minha mãe recebeu a visita de dois homens vestidos de policiais, porém suas fardas eram antigas. Eles entraram em seu quarto cada um segurava por uma orelha de um ser meio humano, meio animal. Essa criatura horripilante mantinha a cabeça baixa, se aproximaram e jogaram ele nos pés da cama, perguntando oque fariam com ele. Minha mãe perguntou quem era ele e a criatura ergueu uma das mãos, enorme e com imensas garras, com o dedo indicador ele arranhou a ponta do nariz dela e fez escorrer sangue ela então compreendeu do que se tratava. Quando acordou no outro dia ela tomou as providências e mandou aquela criatura para o seu devido lugar. Daí então cessaram todos os fatos estranhos. Hoje a vila já não existe mais, construímos duas casas novas, no lugar do resto da vila, construíram um condomínio com prédios altíssimos e talvez isso tenha quebrado todos os vínculos dos espíritos que habitavam aquela velha vila com o nosso mundo.

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