Havia no Corvo uma furna muito grande que se estendia por debaixo do chão, no meio das terras, onde frequentemente, os homens passavam ou trabalhavam. Aquele boqueirão medonho, que tinha o nome de Furna dos Encantados, causava medo a muitas pessoas por acreditarem que era domínio de diabos.
Uma certa vez, já há muitos anos, estava um homem mais destemido sentado a descansar fora da furna, quando começou a ouvir uma conversa entre 3 demónios que estavam dentro do esconderijo. Um deles, muito contente, entre gargalhadas maldosas, dizia aos outros:
- Fulano não me escapa que eu já o tenho de mão.
- Aquele outro Fulano jejua 3 sextas-feiras do ano. Ele vai-se salvar, não tenho maneira de o apanhar! - resmungou um outro demónio, mal-disposto.
- Que sextas-feiras são essas que são assim tão importantes para a salvação? - perguntou um terceiro.
O demónio que antes tinha falado começou a explicar:
- Uma é a primeira sexta-feira do mês. A outra é a sexta-feira do Divino Espírito Santo e a terceira é...
Nisto um dos demónios, farejando, interrompeu a fala do companheiro e disse:
- Anda gente por aqui!
O homem que estava cá fora sentado, muito calado, a escutar a conversa, ao ouvir isto, largou-se a fugir o mais depressa que pôde com medo que os demónios viessem atrás dele e o apanhassem. Correu por ali abaixo e só parou quando se apanhou em casa com a porta bem fechada. Ao verem-no tão aflito, perguntaram-lhe o que tinha acontecido e ele contou a conversa que tinha escutado entre os demónios.
Todos os habitantes da ilha do Corvo ficaram muito apreensivos porque queriam saber qual era a outra sexta-feira em que tinham de jejuar para se poderem salvar.
Como nunca mais tiveram maneira de saber, passou a ser hábito no Corvo, durante muitos anos, jejuar todas as sextas-feiras para que assim estivessem seguros de que se iam salvar e não iam cair no poder dos demónios.