Um Crime horrível e inesquecível
Pedro e Inês não podiam imaginar o que se conspirava na corte. Instalados com os filhos no belo pavilhão de caça, sentiam-se felicíssimos. Davam passeios por entre o arvoredo, resfrescavam-se, hão-de de ter estado à beira do regato recordando a época em que ali punham a navegar os barquinhos que transportavam as suas cartas de amor.
Entretanto os planos para assassinar Inês de Castro iam ganhando força. Combinaram-se pormenores, só faltava aguardar o momento propício.
Certo dia, aproveitando a ausência do príncipe, que tinha ido à caça, o rei dirigiu-se a Coimbra na companhia de três fidalgos - Diogo Lopes Pacheco, Álvaro Gonçalves e Pêro Coelho. Procuraram Inês, que segundo a tradição estava sozinha na mata à beira de uma fonte. Ela, assim que os viu, percebeu ao que vinham e ficou aterrorizada. Chorou, pediu para lhe puparem a vida, lembrou os filhos que tão pequeninos iam ficar sem mãe. Parece que as súplicas da rapariga indefesa, que afinal de contas nunca fizera nada a ninguém, tiveram algum efeito no coração do rei, pois retirou-se dizendo aos três companheiros que procedessem como entendessem. Ao contrário do rei, esses três malvados não se comoveram e apunhalaram-na mesmo ali sem dó nem piedade. Porquê? Não é fácil responder a esta pergunta. Se fosse para proteger o príncipe Fernando da rivalidade com os meios-irmãos, a morte de Inês pouco servia, pois as crianças continuavam vivas. Relativamente às propostas nas guerras de Castela, D. Pedro sempre recusara e não era com certeza a mulher que ia incentivá-lo a combater. Quanto aos Castros, o crime só podia ter o efeito contrário. D. Pedro desgostoso com a morte da sua amada, certamente se chegaria mais aos cunhados e aos parentes dela, o que, aliás, aconteceu. Porquê então apunhalar assim a sangue-frio uma mulher desprotegida que só saíra do anonimato por viver um caso de amor? Na verdade ninguém pode responder esta pergunta com tal segurança. Talvez os próprios assassinos não soubessem explicar de onde veio o ódio e a raiva que os levou a cometer aquele crime horrível.
A mancha vermelha
Segundo a lenda, o sangue de Inês misturou-se com as águas da fonte mas não se diluiu. Nas pedras do fundo ficou para sempre uma mancha vermelha que não deixa esquecer este episódio tão triste e vergonhoso da História de Portugal. E a fonte veio a receber o nome apropriado de Fonte das Lágrimas.
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Texto retirado do livro: "Uma Aventura na Quinta das Lágrimas" de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada.