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Matérias / Histórias Incríveis

O Menino no Lago


Rita Maria Felix da Silva

Enviado por Rita Maria Felix da Silva em 16 de Fevereiro de 2005. Escreva para o autor


Esta é a história de uma criança e seu companheiro que encontram uma bruxa que vai mudar suas vidas.

Elisa caminhava pela estradinha que separava sua escola de sua casa. Era uma tarde de sexta feira e ela caminava com o alívio de mais uma semana de estudo terminada. Tinha doze anos de idade e já acreditava ser capaz de se virar sozinha, em todos os aspectos que conhecia da vida, como muitas vezes acontece com pessoas desta idade. Apesar disso, era uma menina de índole tranqüila, sem estar sofrendo ainda da impulsividade e da turbulência emocional típicas de tantas outras amigas e colegas. Nada exceto uma paixonite ou duas ao longo dos primeiros anos da adolescência, mas muito mais preocupada por enquanto com os estudos e os treinos de vôlei. Uma menina bonitinha, bem mais inteligente que a média, querida por pais e professores, e cobiçada por alguns meninos que começavam a vê-la de forma diferente.

Foi uma surpresa desagradável para esta criatura, que julgava que sua vida seria sempre pacata e sem grandes conflitos, e estava feliz com isso, o que aconteceu com ela naquele final de tarde. Eram exatamente seis horas e quinze minutos e ela estava sozinha na trilha morro acima que a levaria para casa. Começava a escurecer mais cedo. Foi neste instante que ouviu um ruído suave, de alguém pisando muito levemente em algumas folhas secas no chão. Virou-se, surpresa, e viu um homem sorrindo para ela. Ainda sem entender exatamente o que acontecia, viu o sujeito se aproximar em silêncio. Não houve tempo de perguntar nada.
O resto foi pesadelo.

II

Naquela noite, às oito e meia, o Sr. José Marques já havia procurado pela filha por todas os lugares que conseguiu imaginar como seu paradeiro. Ela deveria ter chegado em casa às seis e meia. Telefonemas para vizinhos não haviam revelado nada, o que era estranho, posto que a cidade era pequena e não havia muitas casas onde ela pudesse estar àquela hora. O desespero começava e tomar conta dele também, quanto à sua mulher, Eulália Marques, já se encontrava ajoelhada diante de uma imagem religiosa rezando com uma palidez infernal estampada no rosto. José estava prestes a telefonar para a polícia, mas, neste exato insntante, soaram três batidas na porta. O telefone caiu derrubando também o retrato da menina na mesinha, a mãe correu em direção à porta e abriu sem perguntar.

Sua filha não estava lá.

No seu lugar, havia um homem de preto com um colarinho branco imaculado e uma expressão de pesar. Contendo a vontade de chorar que a decepção e o desespero lhe faziam aflorar à garganta, ela ainda conseguiu dizer:

-Pois não, padre?

-Boa noite, dona Eulália. Eu posso entrar?

-Claro. O que houve?

Deu passagem ao padre Eusébio, que se apresentava solícito e condolente, antes mesmo de dizer por que.

-Boa noite, seu José.

Foi quando percebeu o retrato caído no chão, com a moldura trincada. E o sacerdote pôde ver nos olhos dos dois que já estavam esperando por uma notícia ruim, muito embora até o último minuto tenham torcido para que ele apenas os convocasse para uma reunião na igreja, da qual a família era assídua frequentadora, para tratar de um assunto banal.

-José, Eulália. O assunto é sério. Eu peço a vocês calma e confiança em Deus agora.

-O que é que houve, homem?! – explodiu José – Nós estamos com um problema pra resolver, fala logo.

-Eu acho que sei qualé o problema. É a Elisa?

-É... – disse o homem – ela não chegou da escola. Estamos preocupados.

-Eu encontrei ela.

-Onde? – disse a mãe.

-Tenham calma, por favor. Ela está no hospital.

Dona Eulália sentiu a vista escurecer. José a socorreu enquanto caia. Depois de a acomodar no sofá, ela perguntou, recobrando os sentidos entre soluços:

-Ela tá bem? O que aconteceu com nossa filhinha?

-Ela está bem agora, dona Eulália, eu conversei com ela, mas a menina passou por uma experiência horrível.

José não se continha mais. Gritou:

-O que é que fizeram com a minha filha?! Alguém atropelou ela?

-Não. Alguém atacou ela.

Pairou um silêncio pesado. Quase dava para enxergar o ódio e o pesar como se fossem cores. O padre, depois de algum tempo, continuou:

-Um homem atacou ela. Sexualmente. Ela foi bem machucada, mas está sendo tratada agora.

-Quem foi o desgraçado?! Me diz quem foi o desgraçado!!

-Não. Eu sei, mas eu não posso dizer.

-Por que não?! Eu quero pegar o filho da puta e capar! Quero matar o...

-Sr. José, calma! Isso não leva a nada. A sua filha precisa de você no hospital, junto com ela, pra ficar bem. Eu não quero ver um bom cristão como o senhor se transformar num assassino. Tenha calma, eu conversei com a sua filha e ela me contou quem fez isso com ela. Eu já informei o delegado e ele está indo deter o sujeito.

-É alguém aqui da cidade?

-Não tenta adivinhar. Você vai descobrir depois que o homem estiver preso. Ele não vai fazer mais mal a ninguém. Agora, eu acho que vocês vão querer ir até o hospital ver a Elisa. Eu sinto muito. Mas fiquem tranquilos. A polícia já foi acionada e o bandido não vai escapar. Boa noite, e tenha fé. Deus vai ajudar vocês a superar isso. Eu vou voltar pra igreja e rezar por vocês.

E, com calma e serenidade, o padre Eusébio, o responsável pela espiritualidade da cidadezinha já há vinte anos, e acostumado a lidar com situações semelhantes, voltou para fora e começou sua caminhada solitária de volta para a paróquia.

Alguns minutos depois, os Marques saíam.

III

Enquanto isto ocorria, uma caminhonete ocupada por três homens dirigia por uma outra estrada de terra que conduzia à uma propriedade solitária, distante das outras da região, e bem antiga, para os padrões da cidadezinha. Normalmente evitada por todos, devido à má reputação de seu ocupante.

O nome do ocupante era Vítor Kasper, e os boatos que corriam a respeito dele variavam muito. O que se sabia é que era um homem estranho. Ocupava o lugar sozinho há cerca de dez anos. Vivia quase todo o tempo em sua grande casa rodeada de árvores e isolada por um portão de ferro antigo e pesado. Não frequentava a igreja e nem nenhum acontecimento social da localidade. Raramente era visto, exceto em algumas ocasiões quando ia até a cidade buscar encomendas misteriosas. Era um homem alto, magro, loiro e de feições serenas e delicadas, na casa dos quarenta anos. Sempre bem vestido, embora sempre à moda antiga, e usava óculos redondos havia muito fora de moda. Falava pouco e suavemente. Ninguém sabia como se sustentava e o que fazia durante todo o tempo em que ficava encerrado.

Os três homens na caminhonete eram o delegado, Humberto, e os outros dois policiais responsáveis pelo distrito. Um deles era Joca, antigo amigo de Humberto e companheiro de profissão havia muito tempo, o outro era um novato, que viera de outra cidade, e no qual juventude, inexperiência e boa vontade se mesclavam. Seu nome era Carlos.

Humberto dirigia. O percurso era longo e, àquela hora, convinha fazê-lo lentamente. Carlos havia acabado de perguntar:

-Mas... a gente pode ter certeza de que foi ele? Não tem prova nenhuma.
Humberto suspirou. Aquele comportamento já estava cansando. Em seguida, falou:

-Joca, explica pra ele. Eu não quero falar enquanto dirijo.

Joca lançou um olhar para o novato e disse, com calma, para começar:

-A gente pode ter certeza, sim, guri. Pelo que aconteceu no passado. É mal de família.

-Como assim?

-Olha... não é a primeira vez que alguém da família desse filha da puta apronta uma dessas.

-Mas eu não sabia que ele tinha parentes na cidade.

-Eu vou te contar a história toda, se tu deixar. Agora ouve. Ninguém sabe de onde a família desse sujeito veio, mas ele já teve parentes. Chegou aqui faz mais de trinta anos, ainda guri, com o pai, que já era de uma certa idade e falava com um sotaque esquisito, e a mãe, que era bem mais nova e morreu atropelada no mesmo ano. Aí ficaram só o pai e os dois filhos dele.

-Dois?

-É. O traste tinha um irmão. Acho que era mais velho, porque era maior do que ele e mais forte. Eu era um merdinha naquele tempo e me borrava de medo dele, como todo mundo. O menino não era normal.

-Como assim?

-Era retardado. Mongolóide. Não sei como é que se diz. Falava de um jeito esquisito e era feio pra diabo, mas era muito grande e muito forte. Não frequentava a escola, e ninguém era contra. Mas ninguém gostava de encontrar aquele monstrengo caminhando por aí. Porque o irresponsável do pai dos dois deixava ele solto, às vezes, pelo campo e pela cidade, e pergunta pra qualquer um como era estar voltando de um baile e, de repente, ver aquele troço no meio de uma noite escura. Quem não soubesse antes que era gente, ia pensar que tava vendo uma coisa do outro mundo.

-Era tão feio assim?

-Não era só feio. Era malvado também.

Para Carlos, retardamento mental era uma coisa que, de certa forma, excluía maldade. Ele não conseguiu compreender de pronto.

-Como é que você sabe? Ele aprontava alguma coisa? Batia em alguém?

-Nisso o anormal foi esperto. Nunca deu muita bandeira, até o dia em que aprontou pra valer. A gente pensava que era só mais um doente, como tantos que há no mundo, mas uma vez, quando o irmão dele, esse que a gente tá indo intimar, já tinha uns treze anos e ia partir pra estudar fora daqui, o retardado fez a mesma coisa que o irmão fez esta tarde.

-Violentou uma menina? – perguntou o jovem, surpreso pela circunstancialidade de todas as evidências que cercavam Vitor Kasper.

-Um pouco pior... ou melhor, dependendo de pra quem você pergunta. Ele agarrou uma menininha de treze anos, a coisa mais linda do mundo. Bem parecida com a que o irmão desgraçou agora. Só que, depois de se lambuzar com ela, ele apertou a garganta da coitada até ela morrer.
Inevitavelmente, naquele instante, a imagem de Elisa morta em algum bosque obscuro da região, lhe assaltou. Demorou para que falasse novamente.

-Mas... alguém viu?

-Sim, alguém viu. Mas não precisava ver, porque só alguém muito forte e com algum problema conseguiria fazer aquilo. Não podia ser outro.

-Mas alguém viu!

-Sim. Sabe, o crime foi perto do seminário, no meio do mato, que também fica aqui perto. E três seminaristas, que estavam indo visitar os pais no dia em que tinham permissão pra isso, caminhando pro ponto de ônibus - três crianças, sabe? - Encontraram o desgraçado, disseram que ele corria e babava, e mal olhou pra eles. Foram ver do que é que ele estava correndo, e encontraram o corpo da menina no meio das árvores. É mal de família.

-E onde é que está o retardado hoje? Num hospício?

-Não.

Houve um silêncio de constrangimento.

-Depois que o bandido morreu – continuou Joca, sem dar maiores detalhes – o outro filho partiu para estudar fora daqui. O velho ficou vivendo na casa por mais uns quinze ou vinte anos, pouca gente viu a fuça dele neste tempo. Quando ele morreu, ou um pouco antes, não me lembro, o Vítor voltou. Eu não sei o que o pai dele tanto fazia naquela casa, mas ele ficou no lugar. Passaram dez anos, agora ele aprontou a mesma coisa que o irmão.

Carlos demorou pra articular a pergunta:

-Esse irmão... tinha nome?

-Se tinha, não sei. A gente chamava ele de Manjaléu.

Manjaléu. Um dos nomes do bicho-papão, da entidade arquetípica e universal que assusta e fere crianças. E, às vezes, as devora.
Os grandes portões de ferro da casa acabavam de surgir diante dos faróis. A casa era visível daquela distância, dois andares e uma espécie de mirante em forma de torre no meio. Árvores rodeavam-na, e havia um galpão em anexo, provavelmente uma garagem. Havia um vulto visível no mirante, que estava iluminado.

Parado ao lado do carro, Humberto buzinou, esperando que Vitor Kasper, o irmão do Manjaléu, viesse abrir o portão.

-Além de tudo, é burro! – disse Humberto – Pensou que ninguém ia saber. Nem tentou fugir.

Carlos, parecendo ainda embaraçado, disse:

-Mas... a gente nem falou com o juiz. Como é que vamos prender ele?

-Quem disse que a gente vai prender?

Carlos empalideceu. Joca completou o comentário do delegado.

-Hoje tu vai aprender como é que se lida com esses elementos.

...continua...

4 Comentários para "O Menino no Lago". Deixe o seu

  • The Witch The Witch | 26 de Fevereiro de 2006

    que absurdo, nos bruxas, nos da wicca naum somos mas, naum fazemos rituais sangrentos, naum matamos crianças inocentes, animais ou qualquer ser vivo, mto pelo contrario, valorizamos mto a vida!

  • mileni mileni | 13 de Setembro de 2005

    Mais uma vez vcs (Escritores) estao de parabem . Muito linda esta ,como a de todos . Tudo d bom!!!

  • caroline caroline | 26 de Junho de 2005

    oiii....eu adorei o texto..mto loko...keru ver a conclusaum logo...adorei mesmo!...eu estava interxada em axar fator d fraudes sobre fadas..e vi esse sait..num tem nada a ver..mais tah mto loko o texto.. bjinhus =***

  • Luiz A. de A. Hasse Luiz A. de A. Hasse | 16 de Fevereiro de 2005

    Fabuloso! Magnífico! Não sabia que a Sobrenatural aceitava histórias de fantasia, mas estou muito feliz que tenha aceitado! Parabéns, Rita! Estes tempos tristes em que vivemos precisavam de alguém que soubesse escrever contos de fadas como os dos tempos de outrora. Estou ansioso pela conclusão.

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