Matérias / Histórias Incríveis
Enviado por Richard Diegues em 1 de Maio de 2005. Escreva para o autor
O que aconteceu com o Zeca depois de deixar o bar rindo e como esta história vai terminar?
– Você viu um menino pequeno montado em uma capivara. Cabelos vermelhos e olhos verdes. – Falou Daniel, interrompendo-o sem poder controlar o impulso.
– Sim, foi quase isso o que eu vi. Na verdade eu vi um tapuio montado em um porco-do-mato. Era jovem e junto dele vinha uma vara de sete porcos-do-mato. É claro que o menino não era assustador, mas a cena era por demais. Ele continuava gritando aquele “ecou”, e só parou quando chegou à frente da capivara tombada. Desmontou do porco-do-mato e chegou perto do bicho. Quando ele começou a cheirar o ar olhando ao redor, não tive dúvida e meti uma bala na espingarda. Ele olhou pra mim no topo da árvore. Eu estava escondido e sei que é difícil de acreditar que ele tenha me visto, mas Deus sabe que o olho dele bateu bem de encontro com o meu. Ele me viu, sim senhor.
– E você atirou nele? – Agora foi a vez de o Zeca interromper a conversa.
– Se tivesse atirado, não ia estar aqui contando essa história. – Respondeu rapidamente sabendo que os dois iriam sentir o peso das palavras. – Mas não se preocupem com o garoto ali atrás. Esse não é o curumim que vocês acertaram lá no mato. Sim, eu sei pela cara de vocês que acertaram no “coisinha”, a culpa e o medo estão estampados nos seus olhos. Má sorte, eu garanto. Mas como o que está feito, feito está, vou dizer o que eu fiz pra remediar a história. Posso?
Ele pegou o copo do Zeca e virou de um só gole.
– Pois bem. Até hoje não sei bem o porquê acabei por fazer, mas resolvi descer da árvore. Foi um impulso e tenho certeza que desci mais por medo do que por outra coisa. Eu sabia que ele tinha me visto e eu não tinha muito que fazer lá em cima; no chão ainda poderia correr. Desci já balbuciando algumas desculpas e frases sem sentido sobre a capivara morta. Disse que era pra comer e uma porção de bobagens e quando achei que o curumim ia ficar bravo, ele desatou a rir.
– Rir de você? – Daniel perguntou.
– É, ele começou a rir de mim. Depois chegou perto da capivara e começou a gritar com ela em uma língua que eu não sei se era indígena ou algo perto disso. Gritava e chutava a capivara, como se brigasse com ela. Eu falei como ele se parecia? Eu pergunto por que pra cada um que o vê ele é um pouco diferente. Pra mim ele parecia um menino, meio caboclo meio índio, cabelo cor-de-fogo e pouco mais alto que a minha cintura, só que troncudo e de rosto cheio. A boca era grande e quando ele gritava com a capivara eu via uma porção de dentes podres e pretejando lá dentro. Eu já estava com medo e segurava a espingarda com força, quando não me contive e urinei nas calças. Eu sei que não vão rir de mim, mas eu urinei nas calças mesmo. A capivara que ele chutava deu uma bufada e se colocou de pé. Em um minuto estava morta, no outro estava de pé. Foi assim mesmo e antes que eu acabasse de me molhar ela saiu em debandada pela mata adentro.
– A capivara estava morta mesmo? Você tem certeza?
O velho olhou para Daniel com um olhar paternal, como se olhasse para uma criança que fez uma pergunta estúpida e sorriu.
– Como eu dizia, a capivara saiu correndo pro meio do mato e eu fiquei lá, as pernas congeladas, sem poder me mexer. O menino, no entanto ria e apontava pras minhas calças molhadas. Eu estava ao mesmo tempo envergonhado e aliviado. Envergonhado por ter molhado as calças e aliviado porque ele estava rindo. Eu acabei por me juntar a ele depois de um tempo, rindo da situação e do meu medo, até que ele parou e falou comigo. Disse apenas “fumo” e me estendeu a mão. Eu fiquei durante um tempo perdido, sem saber o que fazer, até que entendi que ele queria um pouco de fumo. Eu não tinha e ele pareceu ficar furioso quando eu lhe disse isso e eu sabia que ia me rogar uma praga ou algo que o valha. Tenho certeza que cheguei a me encolher um pouco e que segurei a arma com mais força, mas foi aí que algum anjo botou a mão no meu ombro. Na verdade, foi ele ali quem botou. – Disse apontando com o queixo na direção do menino próximo da porta. – Eu não sei de onde ele veio, mas acreditem, chegou a boa hora. Ele é um deles, um espírito. É chamado de Pai-do-mato.
– E o outro é o Curupira. – Disse Zeca rindo.
– Ele chegou perto e começou a conversar com o outro em uma língua estranha, meio índio, sei lá. – Ele continuou ignorando as risadas do Zeca. – Por fim, quando achei que os dois iam brigar, este aqui chegou perto e me pediu pra estender a mão. Falou que precisava de um pouco de sangue meu. Falou que ou eu dava um pouco de sangue pro coisinha, ou dava o fumo que ele sabia que eu não tinha.
– Você encontrou foi o chupa-cabras Chico, não era o Curupira. – Insistia Zeca, agora tendo certeza que a história era uma piada para assustar ele e o Daniel.
– Bem, eu dei um talho na mão e deixei o sangue cair no chão. Eu não sabia o que fazer. Então o coisinha chegou perto e começou a lamber as folhas onde o sangue pingava. Eu queria enrolar um trapo na mão, mas o Pai-do-mato não deixou, ele disse que eu só devia parar quando o outro ficasse contente e fosse embora. Tive que dar mais dois talhos na minha mão, mas por fim ele se encheu e foi-se embora. Ele me trouxe até essa casa, na época abandonada e eu acabei me encostando por aqui. No começo eu ia e vinha da campina para cá, depois de um tempo, acabei me mudando e fiquei por aqui mesmo.
Daniel estava horrorizado com a história e não conseguia tirar os olhos do garoto perto da porta. Já o Zeca se levantou rindo muito.
– Olha só a cara do Daniel. – Disse apontando pro outro e rindo. – Foi uma boa história Chico, boa mesmo. – Tirou a carteira do bolso e jogou duas notas sobre a mesa. – O troco fica pela história. Eu vou andando.
Daniel ameaçou dizer alguma coisa, mas na hora em que ia abrindo a boca, o garoto fez balançou a cabeça em negativa. Não chegou a tirar os olhos do livro, mas Daniel compreendeu que aquele era um “não” de “fique quieto” e deixe ele ir.
– Você vem Daniel? – Zeca falou já se dirigindo para a porta.
– Acho que vou pernoitar aqui se o Chico me arrumar um canto – ele olhou para o velho que sorriu – e acho que você também não devia ir embora agora.
– Deixa disso homem. – Ele deu as costas e foi embora. Ao passar do lado do garoto, ainda olhou para ele e passou a mão em sua cabeça antes de sair rindo.
Cerca de dez minutos depois o garoto apanhou a garrafa de refrigerante, bebeu e foi embora para alívio de Daniel.
...continua...
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Como disse o leitor acima, está faltando algo entre o capítulo 04 e 05 e ainda no começo do 1º capitulo...
Parece estar faltando algo entre o capítulo 4 e o capítulo 5 ...
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