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Matérias / Histórias Incríveis

Romance Gótico


Luiz Hasse

Enviado por Luiz Hasse em 17 de Maio de 2006. Escreva para o autor


A vida de uma mulher muda ao receber a visita de um homem que trás a notícia de que ela recebera uma herança milionária...

I


-Boa noite, será que eu posso entrar? – disse o estranho.

Lúcia contemplou ele por pelo menos um minuto. Ele lhe parecia estranhamente familiar e, ao mesmo tempo, desconhecido. Alguém que a gente vê pela primeira vez e tem a impressão de ter convivido a vida toda.

-O que o senhor deseja?

O rapaz sorriu. E Lúcia se viu assustada por tê-lo chamado de senhor. Porque era só um rapazola – alto, mas sem nada que indicasse um físico de atleta. Feições delicadas e cabelos em profusão desordenada ao redor da cabeça. Cabelos extremamente negros. Um rosto neutro, nem feio, nem bonito, do tipo que se esquece com facilidade. Mas, ao sorrir, tinha todo o encanto do mundo.

O rapaz tocara a campainha que havia do outro lado da grade. Ela estava do lado de dentro, sob a varanda da casa. Apenas uns três metros – e grossas barras de ferro com uma cerca eletrificada sobre elas – os separavam. Era noite, mas ainda não muito tarde.

Vestia um terno escuro e uma camisa de linho branca. Parecia estar vindo ou indo para alguma cerimônia ou festa – um batizado, uma formatura, um casamento – um enterro – mas não se via carro algum por perto.

-É natural que a senhorita fique desconfiada...

-Senhora – corrigiu Lúcia.

Sim. Senhora. Casada aos dezessete anos com um noivo dez anos mais velho. Recém-formado, médico, agora rico e bem-sucedido. E quase um quarentão. Ela, a caminho dos trinta, ainda tinha uma aparência juvenil – principalmente pelo fato de que não podia ter filhos – já fora tomada por estudante algumas vezes. Mas estudantes, em geral, não são casadas. Estudantes não têm um marido frustrado pela impossibilidade de um herdeiro varão geneticamente legítimo com a esposa oficial. Um marido mais ou menos acima da lei – por causa do qual ela já, mais de uma vez, usara óculos escuros à noite e mangas longas no verão.

E talvez o pior de tudo, para ele, fosse que ela continuava bonita. Talvez muito mais do que na época de seu precoce casamento.

-...que a senhora, se faz questão dessa palavra, fique desconfiada, afinal, você não me conhece. Mas seu nome foi indicado.

-Para quê? – a menção horrorizou-a, inexplicavelmente.

-Bem... por meu tio... ele conhecia você. Por acaso não se lembra de um rapaz de sua escola chamado Daniel Ripke?

Uma sombra de uma recordação passou pelo rosto dela – e o sorriso do rapaz se iluminou novamente, e agora ela via o como ele era jovem, um adolescente, provavelmente, e cada vez mais estranhamente familiar – mas esvaneceu-se, e ela abanou a cabeça, tristemente.

O jovem baixou os olhos e suspirou.

-Bem... isso não muda nada. Ele sempre comentou comigo que não era do tipo que seria lembrado depois de um ano... mas ele se lembra de você. Digo, lembrava. Faleceu recentemente.

-Meus pêsames... mas o que eu posso fazer por você?

Ele ergueu os olhos e ela reconheceu a semelhança – muito fugazmente, um vulto, a sombra de uma lembrança, do rosto daquele que dissera ser seu tio, como um aluno da mesma classe, extremamente tímido e solitário, que talvez fosse aquele de quem ela falava.

-Você poderia sair do marco da porta, andar através do jardim e abrir o portão pra mim, e eu poderia lhe explicar melhor um assunto delicado... que fica melhor entre quatro paredes.

Ela se viu abrindo o portão... e em seguida não o fez. Pensou no que o dr. Antônio Donatto faria com ela se soubesse que, às dez horas da noite, ela recebera em sua casa um rapazote com seguramente menos de vinte anos – que, apesar do corpo franzino, deveria ter, como todo o jovem comparado com um homem de meia-idade, uma virilidade invejável, que os preconceitos sociais impediam de exercitar e, assim, de adquirir a única coisa que falta a um adolescente neste campo – a superestimada experiência.

Antônio era experiente no uso do corpo alheio – mas de formas bastante desagradáveis, também.

-Lamento, espero que me entenda, menino, mas meu marido não está e... bom... a cidade não anda tão segura quanto antigamente...

Ela sorriu constrangida – aburdo! Ele é que devia estar constrangido!

Mas não estava.

Ele a olhou com um olhar duro e cruel – no qual estavam misturados revolta, asco e ódio e, direcionado apenas para ela, uma pitada de desprezo.

Lúcia empalideceu. Uma certeza irracional assaltou-a: Ele sabia! Ele sabia o que acontecia debaixo de seu teto! Das surras! Da tortura psicológica! Da humilhação! Da...

Absurdo. Fora uns poucos amigos do círculo do marido – que, como bons médicos, sempre se protegem mutuamente, e, portanto, não diriam nada – ninguém sabia. Porque ela não tinha ninguém com quem conversar. Ficava em casa, dia e noite, noite e dia. Tinha uma empregada para auxiliá-la, mas conhecia a verdadeira função daquela mulherzinha. Vigiá-la. A mulher estava em seu dia quinzenal de folga – provavelmente em algum motel barato com Antônio, pois era bom variar a dieta, é o que todo o médico dizia.

Pensou na empregada morena e em sua própria pele alva e salpicada de sardas e ocasionais equimoses. Em seus cabelos arruivados e lindos olhos verdes às vezes com órbitas arroxeadas. Pensou na empregada morena e de corpo voluptuoso, com olhos também verdes e muito mais jovem que ela. E imaginou – e provavelmente tinha razão! – que o marido devia tratá-la muito melhor do que a ela. Afinal, era só uma profissional – quase um ser humano – ao passo que ela, a esposa perfeita para exibir em eventos sociais, era uma coisa.

Por que ela continuava com ele? Medo? Apenas medo?

Será que ela esperava ser resgatada por algum tipo de cavaleiro andante?

O jovem ergueu as mãos e encostou-as na grade. Disse então, voltando subitamente com o sorriso aos lábios.

-Então, minha amiga, estou com as mãos bem posicionadas onde você pode ver e, se quiser, posso tirar a roupa e mostrar que não porto arma. Mas você precisa chegar um pouco mais perto. O que eu vou dizer não ficaria bem em voz muito alta. Tem a ver com o meu tio e o que ele sentia por você.

Ela riu – era uma maneira estranha de falar para alguém tão jovem – e, sem nem pensar, caminhou em sua direção. Ele era estranhamente atraente. A sensação era a de ter piscado os olhos e, ao abrí-los, estar diante dele.

-O que acontece, senhorita Lumpczeck – era seu nome de solteira, mas ela não retrucou desta vez – é que meu tio era apaixonado por você durante o colégio. Na época, não teve chance de se declarar... ou, melhor dizendo, não teve coragem. Depois que terminou a faculdade, ele fez bons negócios e enriqueceu. Ele está podre de rico. Digo... estaria. Há um mês atrás foi diagnosticada uma doença terminal. Era no cérebro e não havia nada a ser feito. Ele pôs os negócios em ordem, redigiu um testamento e tomou um cálice de vinho com veneno há duas semanas, enquanto ouvia o Rechiem de Mozart na sua biblioteca. Neste testamento, consta seu nome.

Ela enrubesceu bruscamente. Uma mistura de sensações – vaidade, medo, piedade, ansiedade e prazer – explodiu dentro dela assim que ele pontuou a frase e sorriu. O jovem parecia perceber.

-Porém, pela lei – disse o rapaz – pelo menos metade dos bens deve ficar com os herdeiros legítimos de sangue. Neste caso... o único que há sou eu. E, antes que os advogados comecem a dar maus conselhos sobre como lidar com a herança de Daniel Ripke, eu gostaria de encontrar-me com a senhorita pessoalmente e, sem assinatura de nenhum documento, nem gravadores ligados ou artimanhas do tipo, expor o que teremos de dividir e ouvir suas idéias a respeito. Mas asseguro-lhe de que se trata de, mesmo dividido pela metade, liberdade, ócio e glamour pelo resto da vida.
Lúcia chegou a abrir a boca para gritar. E teria desmaiado se não chegasse a uma conclusão súbita.

Era um sonho! Era a terra prometida! Era como num conto de fadas! Era...

Bom demais pra ser verdade.

Assim como com Antônio. E a vida lhe ensinara que tais coisas normalmente carregavam amargas decepções.

-Eu sou apenas uma...

Calou-se. O que diria. Uma mulher?

Aquela palavra fora usada em tom pejorativo várias vezes pelo único homem com quem ela já dormira. E isso transformara – juntamente com os punhos e uma cinta de couro – uma estudante esperta, dinâmica e alegre numa sombra enjaulada e submissa. Odiou Antônio por aquilo... e odiou mais a si mesma. Por se haver submetido. Por que será que, diante daquele jovem tão gentil, não conseguia parar de pensar no marido?

-Será que eu posso entrar agora?

Duas forças lutaram dentro dela. E isso era visível em seu rosto, pelo menos para o jovem paciente do lado de fora. No final, a força que dizia para não abrir venceu – no entanto, não foi o medo de Antônio, mas a desconfiança, as duras lições que a vida lhe dera sobre os homens, que a impediram de erguer a mão para o trinco.
-Lamento – murmurou ela – mas é muito tarde e, como você mesmo disse, eu não o conheço. E sinto muito dizer que não lembro de seu tio. Ele devia ser um rapaz muito bom.

O jovem sorriu um sorriso triste. Estava frustrado – mas não decepcionado. Não inteiramente, pelo menos. O desprezo que houvera em seus olhos já sumira.

-Bem, assim sendo, só me resta uma opção...
E meteu a mão dentro do paletó.

O susto foi apenas momentâneo. Dali não surgiu nenhuma arma, apenas um envelope em branco, mas pesado.

Ele depositou, com cautela e delicadeza, o envelope no chão, do seu lado da grade. Depois disso, disse a ela.
-Aí está toda a documentação comprovando o que eu disse. Pegue, leia e, se possível, apareça na casa do falecido amanhã, aí pelas sete horas da noite, ou mais tarde, quando eu terei voltado de meus afazeres e poderei te receber. Então poderemos tratar melhor de tua herança.

Ela olhou para o envelope, quase hipnotizada. Ouviu os passos do jovem se afastando e um suave “Boa noite” os acompanhando. Não levantou os olhos para ver como ele partia. Curvou-se, enfiou a mão pelas grades e pegou o que o estranho lhe deixara.

Só então percebeu que, em nenhum momento, aquele sobrinho de Daniel Ripke lhe deixara seu nome.

Entrou em casa e foi para a cama. Seu marido podia chegar a qualquer instante e ela não queria que ele visse aquilo. Por isso, abriu o travesseiro com uma tesoura, colocou o envelope, ainda fechado, no meio das bolotas de algodão no interior, e costurou por cima do rasgo. Depois, cobriu-o com a fronha e deitou-se.
Estava feliz... e com medo. A combinação perfeita da expectativa.
No entanto, num desses estranhos paradoxos, dormiu muito bem. E sonhos muito doces, dos quais não restava nenhuma lembrança no dia seguinte, exceto a de que eram doces, a acompanharam durante a noite inteira, pela primeira vez em anos.

...continua...

Páginas desta matéria:

15 Comentários para "Romance Gótico". Deixe o seu

  • Thatty Pinheiro Thatty Pinheiro | 21 de Maio de 2007

    Nossa essa história eh maravilhosa...me prendi aos detalhes...e apenas consegui parar de ler quando chagara o fim desta...mto linda...ameii...PARABÉÉNSS

  • Fernanda Fernanda | 28 de Outubro de 2006

    Nhá !!
    noooooooooooooooossa!!
    estorinhaa fodastika !!
    puts... muuuuuuuuuuito linda !!!
    e sinistra tbm !!
    adorei está misturaa !!!
    perfect !!!
    é isso !!
    bJO

  • fabiano fabiano | 28 de Outubro de 2006

    RAPAZZZZZZZZZZZZZZZ!!!!!!!!!!!!!!!!!
    TO ATÉ COM UMA SENSAÇÃO ESTRANHA DO TIPO
    (DOCE E AMARGO, FRIO E QUENTE) ESTA HISTORIA MEXEU PROFUNDAMENTE COM MEUS SENTIDOS,EM TODOS OS MEUS SENTIDOS,
    PARABENS!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • Re :] Re :] | 21 de Outubro de 2006

    Mto fofooooo!!!ehhehee
    Super romantico, fiquei imaginando a continuação seria mais fofo ainda (não querem escrever pra gente não, heim?):]:]:]
    Morrendo de sono pelo horario, mais, com certeza valeu mto a pena , adorei a historia, é inevitavel parar no meio(por não querer ler mais) ...
    Incrivellll!!!!!!
    Recomendo ...
    E com certeza vo faze propaganda pra amigos !

  • Eduardo Cardoso Eduardo Cardoso | 23 de Julho de 2006

    muito bom.... sem comentarios...

  • Claudio Coitinho Claudio Coitinho | 16 de Junho de 2006

    Realmente emocionante, um conto que não te deixa afastar,Muito bom !

  • CURIOSA CURIOSA | 2 de Junho de 2006

    Li tudinho sem parar.Foi muito emocionante,romântica,aterrorizante etc.Gostei muito,Parabens para que publicou!!!

  • Valéria Valéria | 25 de Maio de 2006

    Muito boa, adorei a historia.

  • priscilla priscilla | 24 de Maio de 2006

    como eu jah havia dito a vc, adorEEEii..muitos bjusss meu querido

  • goticus goticus | 22 de Maio de 2006

    Kirie,ótima estória PARABÉNS. PAZ PROFUNDA

  • Ingrid Ingrid | 21 de Maio de 2006

    Amigo, uma linda história você escreveu... Parabéns! Aguardarei mais.

  • Fada das Trevas Fada das Trevas | 21 de Maio de 2006

    muito bom o texto... uma coisa meio a rainha dos condenados...mas eu enquanto lia imaginei umacoisa meio de época...gostei muito sim o(a) escritor(a) esta de parabéns...´só não entendi essa frase Um olhar de alguém que perdeu o olfato e o paladar e vai trabalhar na fantástica fábrica de chocolate. ehehe darkisses

  • silvia silvia | 19 de Maio de 2006

    Olá,luiz!!!adorei a historia,escreva mais,tá!

  • Jorge Jorge | 18 de Maio de 2006

    Um dos melhores contos góticos que já tive o prazer de ler... Esse vai para o meu acervo com certeza. Parabéns

  • Fantástico Fantástico | 18 de Maio de 2006

    Estou agora, praticamente às 2 horas da manhã, deliciando-me com mais uma grandiosa estória de Luiz Hasse. A bela linguagem do autor, sem erros de pontuação, aliada a um senso fantástico de ficção e suspense, fazem qualquer um ficar acordado, de olhos bem abertos. Parabéns, Luiz Hasse, por estas estórias publicadas no site! O "Romance Gótico" faz-nos refletir mais acerca do verdadeiro significado da palavra amor, tão vulgarizada nos dias atuais. Passa-nos uma mensagem que ultrapassa os confins do Colosso de Rodes e atinge a nossa íntima mente. Adorei a estória, porque ela é intrigante e, acima de tudo, fantástica. Gostei também da estória "A Criatura nos Subterrâneos do Colégio". Adoro o site também aprecio a magnificente linguagem a qual este autor usa para seus romances. Simplesmente fantástico! Estou esperando mais contos, hein...

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