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Matérias / Histórias Incríveis

Esmeraldas Infernais


Moacyr

Enviado por Moacyr em 28 de Maio de 2007. Escreva para o autor


O dinheiro, o poder, a ganancia. Descubra do que um homem é capaz para conseguir isto. Mas não esqueça que tudo tem um preço, e o preço desta vez pode ser alto demais.

esmeralda
esmeraldas

Capítulo 01

     Turíbio soprou para o ar a fumaça do caríssimo cachimbo importado, esculpido em mogno negro com motivos da antiga Grécia e encravado por muitas turmalinas esverdeadas.
     Depois, cruzando as pernas com ares de importância, voltou-se para o sócio e falou:
     _ Um contra censo, Januário!-  Proferiu, enquanto girava a cadeira confortável e flexível, diante da imensa mesa da Presidência de Hidrelétricas Turiaçu S/A, da qual fora recentemente nomeado como o principal “testa-de-ferro”.
     Suspirou profundamente e durante alguns segundos tamborilou os dedos, repletos de anéis valiosos, de encontro ao forno do cachimbo, baforando mais um pouco da gostosa fumaça suavemente cheirando a chocolate e depois prosseguiu:
     _ Um contra censo! Já o tenho dito! Desistirmos da prospeção das jazidas de esmeraldas pelo irrelevante motivo de estarem elas encravadas em território destinado aos indígenas é algo profundamente absurdo e destituído de quaisquer sentidos para o meu gosto!
     _ O motivo não é tão irrelevante, conforme você pretende que o seja, Turíbio. As tais jazidas estão quase exatamente no meio da reserva territorial demarcada para a nação Caiapó e...
     _ E se pensas que vou paralisar meus empreendimentos porque alguns imbecis, alheios ao progresso, riscaram um imperfeito círculo no mapa indicando com uma seta que aquele pedaço de território  pertence aos índios, tu muito te enganas, meu preclaro lugar-tenente! Conhecendo-me há quase quarenta anos, desde  menino, pensei que ao menos pudesses prever que eu, Turíbio Mendonça de Jabaratinga do Acre, empresário, agricultor, pecuarista, engenheiro rural e político, jamais estancaria minhas conquistas diante de mapa algum!
     _ Mas aquelas terras verdadeiramente pertencem aos indígenas e há muito que se encontram demarcadas pela FUNAI...
     _ Bem se percebe que você herdou muito mais as ponderações de tua mãe que o grande talento e a férrea vontade de teu pai, caro primo Januário!
     Olhou para o interlocutor com certo desprezo e, em seguida, prosseguiu:
     _ Você diz que as tais terras pertencem àqueles índios porque a FUNAI as demarcou. Agora, entretanto, respondas-me: Que direitos têm os índios àquelas tão vastas regiões, se nunca as conquistaram pelo poder da força ou tampouco as compraram através do favor do dinheiro? Quem é a Fundação Nacional do Índio para arvorar-se no direito de conceder terras virgens àquelas tribos bárbaras e ignorantes, sem nenhum vínculo com a nossa civilização de origem européia? A FUNAI? Acaso é constituída por poderosos deuses ou anjos, incumbidos de fazer valer suas doações com terríveis castigos contra os que não as respeitarem? Não! Claro que não! São uns bandos de basbaques, cafajestes e corruptos, tão humanos quanto nós e eu desde cedo aprendi a obedecer a Deus, mesmo assim quando os seus mandamentos não colidissem com os meus interesses; porém, seguir os desígnios de outros homens iguais a mim, nunca! Exceto se conseguirem ser mais poderosos que eu.
     _ Turíbio! Desistas dessa perigosa idéia de pretender invadir terras indígenas; ou dentro em breve teremos a opinião pública, a imprensa, a
sociedade, o exército e os padres unidos  contra  nós!  Lembra-te de  que tais terras pertencem por direito natural aos índios!
     _ Não! As terras demarcadas são as que a FUNAI acredita pertencer-lhes;
fato que nós, homens de negócios, discordamos veementemente! Além do mais as áreas das jazidas de esmeraldas não chegam a representar nem mesmo um por cento das ditas reservas. Acredito que por tão pouco ninguém haverá de pretender o desencadeamento de uma guerra. Além do mais não pretendemos confiscar-lhes um único metro quadrado de chão, que o seja. O que ali interessa aos nossos empreendimentos não são as áreas selvagens e desprovidas de infra-estrutura, mas apenas e tão somente as ricas e lindíssimas esmeraldas escondidas numa exígua área!  E tão logo dali retiremos o produto sob a forma de verdes e translúcidas pedras, obviamente devolveremos toda a região para eles!
     _ Mas, e a grita internacional?  As organizações ecológicas de defesa ao silvícola? As ONGs?
     _ Não haverão de gritar e as sociedades filantrópicas  de todo o mundo, conceder-me-ão medalhas! Porque tudo ali será feito o mais discretamente
possível e no final da estória é até mesmo possível que ninguém fique sabendo de coisa alguma!
     _ Como pretendes mandar escavar aquele chão sem que todos percebam? Ficastes maluco? O mundo inteiro haverá de descobrir...
     _ Só se você contar! De minha parte, resguardando nossos próprios interesses comerciais, prometo manter segredo! Rá! Rá! Rá!
     _ Turíbio, você mexe com fogo e a tua ambição sem limites poderá vir a arruinar-nos!
     _ Pena Januário que você possua cabeça apenas para enfiar este ridículo chapéu ou às vezes sentir dores ao pensar somente nos problemas, nunca nas soluções! Se eu te afirmo que dentro de um mês estarei lá, extraindo as maravilhosas esmeraldas como bom Bandeirante do Século XX, é porque  já tomei as medidas necessárias para tal finalidade.

Capítulo 02

    Com ligeiro espreguiçamento seguido de um breve bocejo, Turíbio esticou os braços, sem inclinar-se, abriu a gaveta, dela retirando uma dupla folha de papel, jogando-a na direção do outro:
     _ Leia a manchete! Rá! Rá! Rá!
     Januário arregalou as vistas, franziu o senho e quase aos gritos falou:
     _ Horror! É verdadeiro o que aqui está escrito?
     _ Verdade esplendorosa, toda cravejada de riquíssimas esmeraldas.
     _ É terrível demais! Mal posso acreditar nesta notícia:

     “FEBRE MISTERIOSA DIZIMA TRIBO DA NAÇÃO CAIAPÓ – Até o presente momento cálculos superficialmente estimados dão-nos conta de que mais de duzentas pessoas pertencentes a uma das tribos Caipós do Acre, morreram em conseqüência de misteriosa epidemia propagada próximo ao centro da reserva indígena.

     Até agora se desconhecem as causas da terrível doença, bem como o exato número de mortos. Certo é que, indígenas vitimados pela praga abandonaram a região, temendo as autoridades que a epidemia propague-se por outras tribos para onde aquelas vítimas da doença pretendem buscar socorros.

     Para a região já foram enviados grupos de socorros sob a liderança do conhecido filantropo Turíbio de Mendonça, rico empresário nacional que,
apiedado com a triste condição daqueles selvagens, obteve autorização da FUNAI e demais órgãos governamentais para ali iniciar os socorros aos atingidos pela estranha doença.

     A área  é  de  difícil acesso e por isso as equipes estão levando moto serras, escavadeiras e todo o equipamento necessário...”

     _ Turíbio! Você está aqui! Como o jornal afirma que estavas lá?
     _ Falei com os repórteres daqui mesmo, de meu escritório de cobertura e frente para o mar, mas disse-lhes pelo meu rádio de ondas curtas que me encontrava a caminho do centro das reservas caiapós. E enquanto da sacada observava tranqüilamente aquelas ondas do mar sereno fazendo vai e vem, liguei o gravador com os sons da fita “Inferno Verde”, onde existem reproduções dos cânticos dos pássaros da floresta tropical e eles não tiveram dúvidas: noticiaram em primeira mão que eu já estava a caminho, enfrentando todos os perigos da mata para salvar meus semelhantes!
     Januário olhava-o como se não acreditasse, porém Turíbio ignorou a censura expressa pelos olhos do outro e sem abalar-se continuou:
     _ Os jornais, como as pessoas, costumam afirmar o que acreditam ser a realidade. Eu simplesmente induzi o tal repórter a erro e tamanha foi a minha maestria nesse sentido que ele mesmo será capaz de jurar sobre a Bíblia: “_ Dr. Turíbio, encontra-se neste momento na reserva dos Caiapós do Acre!”.
     _ E as equipes de socorros?
     _ Essas efetivamente pertencem-me... Com um único detalhe: não são exatamente de socorros, mas sim de escavações, prospeções, extrações de pedras preciosas, caro primo Januário!
     _ Turíbio! E a doença? Que terrível epidemia está grassando naquela região, capaz de matar duzentas pessoas em tão curto espaço de tempo?
     _ Mixomatose humana, meu preclaro Januário!  Mixomatose!
     _ Mas essa praga não é apenas inerente e exclusiva dos coelhos?
     _ Era! Agora, depois que um certo laboratório, durante mais de um ano, sob o meu patrocínio e generosas doações, trabalhou com o vírus, modernamente temos o que poderemos chamar: uma evolução científica no campo das viroses. Eis que sob certos cuidados e condições especiais os vírus que antes somente atacavam aos coelhos, passarão a dizimar também populações humanas!
     A nossa Ciência não está cada vez mais formidável, ínclito primo?
     _ Mas como isso pode ser feito?
     _ Foi um trabalho bioquímico melindroso; requereu paciência, recursos e tempo, porém relativamente simples, econômico e ao alcance de quase todos.
     _ Observe que o vírus causador da mixomatose nos coelhos, normalmente apenas ataca a esses tipos de roedores, deixando-os com o mais deplorável e terrível aspecto porque, nos estertores finais da doença, o sangue acaba brotando à flor da pele, em razão da ruptura dos vasos sangüíneos, passando a escorrer pelas narinas, bocas e olhos! Ah! Não queiras ver nenhum desses pobres bichinhos vitimado por tão cruel virose! Acredito que você vomitaria, Januário!
     Pois bem! Se injetarmos o vírus da mixomatose em seres humanos, nada acontecerá porque o nosso organismo é incompatível, a princípio, para a
sobrevivência desse microrganismo tão perigoso!
     Porém, aí entra e estória do sapo!
     _ Sapo?
     _ Sim, sapo! Sapo!
     O sangue desse batráquio, em muitos pontos assemelha-se ao humano e por isso pode servir como intermediário entre o coelho e o homem!
     Uma vez triturando-se o fígado de qualquer coelho morto por mixomatose e inoculando-se o “caldinho” no sangue do sapo, os vírus mais resistentes, às duras penas, desenvolver-se-ão ali.
     Em seguida bastou que meus cientistas alugados transferissem a cultura estabelecida no sangue de sapo para uma proveta contendo sangue humano! Então, novamente, alguns dentre esses terríveis vírus lograram sobreviver, adaptando-se assim à nossa espécie!
     Seria impossível obter-se a cultura do vírus da mixomatose diretamente extraídos dos coelhos para os seres humanos, mas com a intermediação de uma boa cultura, feita previamente em sangue de sapo, os novos vírus dali saídos acabaram conseguindo adaptar-se ao sangue humano. Portanto, graças ao meu capital e ao avanço das ciências, transformamos uma doença mortífera, antes exclusiva dos coelhos, numa nova espécie de AIDS! Cá entre nós...Isto não foi
um grande avanço científico?
     _ Isto é monstruoso!
     _ E altamente científico e lucrativo também! Ora! Mal sabes o quanto essa ciência moderna será capaz de obrar prodígios em favor dos bons negócios, meu primo!
     _ E você...Você jogou mixomatose naquela tribo?
     _ Claro que não fui eu! Sou um homem imensamente rico e por isso não necessito sair do lugar para praticar ações físicas!
     Há apenas algumas semanas, alguns homens de minha confiança penetraram na região e cuidaram desse assunto para mim. Injetaram o “caldinho da morte” em alguns coelhos e os deixaram próximos àquela aldeia indígena, justo a que ocupava a área próxima às minas das minhas cintilantes, luminosas e delicadas esmeraldas. E o tal caldinho, contendo  os  vírus  especiais,  já  adaptados ao sangue humano, propagou-se por toda a aldeia!
     E o resultado é o que se vê. A morte de duzentos índios, a fuga de outros tantos e a área deserta, livre e desimpedida para a minha equipe de exploradores, o medo, o terror de todos diante da terrível praga, capaz de dissuadir qualquer funcionário do governo de tentar ir ao local por receio de contrair a doença, o que certamente ocorrerá, deixando meus rapazes trabalharem em paz!
     Contra eles, entretanto, nada ocorrerá porque, assim como eu, já foram todos vacinados!
     Entendestes a filosofia dos meus negócios Januário? Com uma só cajadada eu consegui matar vários coelhos e índios! Ra! Ra! Ra

Capítulo 03

A população foge, os funcionários do governo não entram e, durante meses, poderei mandar extrair todas as toneladas daquelas maravilhosas pedras verdes ali existentes!
     O que tens, Januário? Estás passando mal meu caríssimo primo?
     _ Enjôo! Enjôo! Vomito! Tu és asqueroso demais, Turíbio! Sempre soube que por interesses comerciais tu bem serias capaz de mandar matar os concorrentes de teus espúlios negócios, mas também considerei essas medidas razoáveis, porque aqueles a quem tu eliminavas eram gente da tua laia, animal! Mas agora você pratica genocídio, assassinato em massa contra seres inocentes! É preciso que o teu crime sem perdão seja por todos conhecido...
     _ Não! Você jamais abrirá a tua boca para revelar esta estória a ninguém, estimado primo, porque confiarei na tua extrema discrição, no teu sábio sigilo e na tua total mudez. Se contei a você esses detalhes a respeito de meus negócios, é porque possuo a total convicção de que nada revelarás a respeito!
      Além do mais, sendo tu o único filho de minha tia Mathildes, que por sua vez é viúva e exclusiva irmã de minha falecida mãe e sendo você ainda solteiro, sem mulher e sem filhos; em caso de tua morte, digamos, acidental, o direito hereditário passará exclusivamente para a minha pessoa.
     Foi muito bom você haver aceitado o meu convite para tratarmos de negócios neste escritório meu à prova de som, primo! Rá! Rá! Rá! Atrasei minha viagem à reserva dos Caiapós durante alguns dias; mas disso não terei arrependimento porque, tia Mathildes, já com o pé na cova, com quase duzentos apartamentos alugados e sem filho para interpor-se entre mim e a herança é algo a merecer a minha inteira atenção!
     _ Tu brincas! Decerto não terias coragem! Sou teu primo...
     _ Claro que sou corajoso! E depois, tudo não passará de um acidente. O tiro que com esta pistola calibre 45, munida de silenciador, te desfecharei à testa, não será percebido quando o teu corpo, já morto, for jogado entre as engrenagens de minha fábrica de reaproveitamento de pneus velhos! Enormes dentes de aço, ligados a grandes roldanas serão postos em movimento para dilacerar-te as carnes! Verdadeiros punhais aguçados, capazes de picarem grandes pneus, reduzindo-os às dimensões de pequeninos cubos, penetrarão em teu corpo já morto como pontiagudas espadas na manteiga!
     Já está o esquema bem preparado. Vindo visitar-me e não tendo conseguido falar comigo porque, conforme os jornais já noticiaram eu, neste momento, estou junto à nação Caiapó, prestando-lhe os necessários, abnegados e carinhosos socorros; tu, para não perderes a viagem, resolvestes visitar a minha fábrica de reaproveitamento das borrachas dos pneus usados, ainda em fase de testes, deserta e não inaugurada. Tinhas com certeza as chaves da porta principal daquele grande galpão. Eu mesmo, mais tarde, quando de meu regresso, confirmarei haver fornecido-te uma cópia delas, maldizendo entre lágrimas e lamentos o tal acidente que vitimara o meu valoroso primo e ainda, batendo no peito direi: _ Oh! O culpado fui eu! Se eu não houvesse dado ao meu priminho Januário uma das chaves de entrada da minha fábrica a ser inaugurada no mês que vem ele, coitadinho, não teria morrido ao escorregar na rampa, após inadvertidamente haver derramado uma lata contendo óleo! Com o escorregão, meu pranteado filho da tia, acabou batendo com o braço na alavanca de comando, o que fez movimentar as rodas das facas, antes que caísse sobre elas! Ah! Como será duro viver com tamanho peso na consciência por toda a vida! E tia Mathildes, coitadinha, como deve a pobre estar sofrendo...
     _ Maldito! Eu te...Não!
     PLOF!
     _ Ra! Ra! Ra! E então, primo? Eu não disse que sempre fui capaz de matar muitos coelhos com uma só cajadada?
     Atrasando minha viagem aos Caiapós, livro-me de ti. E uma vez feito isto, ganharei os quase duzentos apartamentos de tia Mathildes, aquela vaca velha, a cada dia mais imortal! Porra, como aquela megera custa a morrer!
     Mas não necessitarei eliminá-la. Como único sobrinho e legítimo herdeiro, será facílimo obter-lhe uma procuração...
     Apenas estou tentando adivinhar, meu finado filho da titia, o quanto será o montante das tuas ações nesta hidrelétrica. Afinal também sou o teu legítimo herdeiro!
     O que me dizes?  Se é que  podes  dizer-me alguma coisa? Com esta bela perfuração à testa, ainda continuas com vontade de vomitar? Ou pretendes denunciar-me, agora que estás morto? Mas... Ora! Estúpido! Fostes manchar com o teu sangue justamente o meu tapete persa preferido!

Capítulo 04

     _ Terras dos Caiapós! Finalmente estou aqui, Turíbio, o Conquistador!
     Já muito longe se vão os tempos em que se arrebentava essa gentalha selvagem, indolente e avessa ao progresso, com dinamites. Tio Flávio e alguns de seus sócios, por várias vezes utilizou-se desse recurso primário; mas agora, nos modernos tempos, em lugar da violência ruidosa, inoculei-lhes o silencioso vírus da mixomatose humana; ao invés de litígios contra a Lei e os órgãos públicos, sou por todos solicitado a salvar os índios, porque ninguém terá a coragem de penetrar numa área infectada pela horripilante doença que deforma em sangue os rostos de suas vítimas e, assim, além de beneficiar-me com o conteúdo da riquíssima jazida de esmeraldas, ainda serei consagrado como herói nacional!
     Os jornais já não falam de outra coisa, exaltando a abnegação, sobretudo minha coragem e, dentro em breve haverei de candidatar-me ao Congresso com todas as possibilidades de êxito! Afinal o “Zé Povinho” adora heróis, ainda mais como eu, possuidor de diploma universitário!
     Turíbio caminhava à frente de dois robustos carregadores. Eram eles homens mestiços, alugados à beira da estrada que levava à entrada da reserva indígena e cem quilômetros separavam-no das imensas minas de esmeraldas.
     Broncos, amatutatos, sem cultura, ambos pareciam não prestar atenção aos vitoriosos brados do “guerreiro-empresário”.
     Cem quilômetros através das mesmas picadas,  abertas a duras penas, como um fio capilar ao meio da gigantesca floresta tropical e uma semana de viagem a pé até o local das minas.
     Dera ordens à sua equipe avançada para que nenhuma pista de pouso destinada a pequenos aviões viesse a ser construída e teimosamente persistira na idéia, contra as argumentações em contrário dos engenheiros.
     Turíbio, afinal de contas, era um tático. Sabia que a construção de qualquer pequeno aeroporto no local poderia levantar algumas suspeitas e, sobretudo, favorecer a chegada de possíveis voluntários, esses abnegados imbuídos do verdadeiro desejo de socorrer aos desvalidos, capazes de enfrentar perigos e com os riscos das próprias vidas!
     Jamais Turíbio temera a presença de funcionários públicos ou os homens do primeiro, segundo ou terceiros escalões do governo: os primeiros evitam correr riscos porque ganham pouco para colocarem a vida e a saúde na berlinda; os segundos ganham muito e, com maiores razões ainda, temem perder a vida, preferindo acompanhar as notícias por intermédio da imprensa.
     Mas Turíbio sabia que existem pessoas caridosas, cujo sentimento de amor ao próximo ele jamais conseguiria entender. Esse sentimento que imbuía tais seres com um certo desprezo para com a própria existência. Talvez o mesmo impulso do guerreiro lançado ao combate e eletrizado pela luta em si. Contra eles, porém, já havia tomado algumas medidas, porque somente eles, os voluntários abelhudos e não outros, poderiam por a fracassar a lucrativa “Operação Esmeralda” em plena selva amazônica.
     E com alguma pista para o pouso de pequenos aviões, haveria facilidade até mesmo para os jornalistas, repórteres, fotógrafos,  cinegrafistas  e bisbilhoteiros   detodos os gêneros localizarem o reduto, lançando suas indiscretas câmeras de poderosas lentes “zoom” contra as atividades dos quarenta homens das duas equipes! E aeroporto ali seria transformado num verdadeiro ponto de referência para os fofoqueiros vindos de fora e que, mesmo acovardados e temendo a grande epidemia desconhecida, haveriam de sobrevoar o local a bordo de helicópteros, vasculhando todos os movimentos de seus rapazes.
     Por isso Turíbio preferiu ir a pé!
     Mandara a grande escavadeira por via fluvial. Ela estava acoplada a um trator e, ceifando as matas, abriria para si própria um bom caminho até às minas.
     Contudo ele pretendia chegar antes da própria máquina e da segunda equipe dela encarregada.
     Mais tarde construiria uma pista de pouso numa área bem distanciada das suas minas de esmeraldas, sem esquecer, entretanto de ali deixar alguns cadáveres de índios ou coelhos repletos de mixomatose para afastar os curiosos. E seria através daquele aeroporto que suas lindas pedras haveriam de ganhar os mercados internacionais!
     _ E assim provarei a esses curiosos que, como bem diz o velho adágio popular: “_ A curiosidade mata!”.
     Por enquanto mandarei postar alguns de meus homens ao longo desta picada... Se qualquer um desses abnegados socorristas vier a predispor-se a enveredar por esta trilha, conforme eu o estou fazendo neste momento, será eliminado a tiros, abafados por silenciadores. E depois bastará que o corpo seja arrastado por alguns metros para o interior da floresta e ela o engolirá! Ah! Esta selva gigante é capaz de engolir estradas, quanto mais a um diminuto corpo humano! E devo confessar a mim próprio que, sem modéstia, sou obrigado a orgulhar-me  de minha astúcia!
     Os pés de Turíbio ardiam-lhe dentro das botas, como se caminhassem próximo a algum maçarico de fogo, ferindo-se pelo contínuo andar nas irregularidades do terreno e da carne viva, surgiram-lhe as primeiras manchas de sangue sob a pele raspada no couro duro dos tais calçados e, aos tropeços ele, um inexperiente das selvas, avançava sem métodos, ferindo-se na vegetação selvagem existente em ambos os lados daquela trilha.
     A ambição, entretanto, longe de faze-lo parar, o impelia para frente. Nem as fortes ardências, como queimaduras em seus pés o fizeram diminuir a marcha e, insensível, prosseguia torcendo-os sobre os seixos e pedras, esbarrando nos gravetos, atingido em pleno rosto pelas grossas e ásperas folhas às margens dos caminhos! E nem o canto das aves, os gritos dos macacos ou a estridente voz das araras mereceram-lhe a atenção. Tampouco os demais animais selvagens. É possível que as próprias onças hajam escondido-se no oco das árvores para não verem passar aquele maldito assassino de índios!
     Como se hipnotizado ele apenas avançava em largos, ligeiros e trôpegos passos; olhos fixos no chão, prosseguindo com leves movimentos nos lábios finos e cruéis, na inaudível prece que talvez fosse também o seu único mantra diabólico:
     _ Esmeraldas! Esmeraldas! Esmeraldas!
     E sucessivamente os dias levantavam-se e as noites caiam e já durante uma semana Turíbio vinha percorrendo a silenciosa trilha dos cem quilômetros, aberta em pleno coração da floresta pelos mesmos índios que sua ciência da morte aniquilara em nome do progresso, dos lucros, da conta bancária, do total desprezo para com a vida alheia ou tudo quanto não pudesse representar dividendos imediatos.
     Finalmente, num ponto próximo ao centro da reserva, ocorrera o incidente.

Capítulo 05

   Turíbio, cabeça baixa, percorria a picada na selva com os olhos fixos nas irregularidades do chão, prevenindo-se contra os tocos ou troncos capazes de derrubá-lo, após fazê-lo tropeçar. Distraído custou a ouvir os gritos dos dois carregadores que, distantes alguns metros na retaguarda, procuravam acompanhar-lhe os passos, já exaustos pelos pesos das enormes mochilas levadas às costas durante a cansativa viagem.
     Mas os carregadores gritaram num tom muito agudo, estridente e prolongado, como o urro de animais apavorados diante da morte!
     Supondo o ataque de algum ofídio ou felino, Turíbio estacou, segurando, dedo já ao gatilho, o fuzil AR-15. Olhou para traz. Os carregadores haviam atirado as pesadas mochilas e, tremendo, apontaram o cadáver putrefato de um coelho deformado pela insana praga, ao pé de uma grande árvore rente ao caminho e que, mesmo tendo passado por ele, Turíbio não o percebera.
     Então o propagador da doença sorriu. Voltou-se alguns metros atrás e abaixando-se, venceu a repugnância e enfiou o dedo indicador nas carnes decompostas do animal. Olhando para ambos exclamou:
     _ Vejam! Não existe perigo algum!
     E ao mira-lo naquela posição os dois homens gritaram estarrecidos.
     Turíbio reafirmou-lhes:
     _ Não tenham medo! Continuem comigo! Afinal não existe nenhum perigo!
     Em seguida pensando:
     “_ Para mim que já estou vacinado contra a peste, nunca para vocês palermas analfabetos”.
     Levantou-se  prosseguindo na caminhada  e os dois carregadores, ainda trêmulos e assustados, repletos de desconfianças, o seguiram.
     Retomando a marcha, Turíbio continuou em seu murmúrio, numa espécie de oração fúnebre:
     _ Esmeraldas! Esmeraldas! Esmeraldas!
     A cada passo tentando equilibrar o corpo, pisando aqui e ali, saltando sobre pedras, tocos pontiagudos ou troncos apodrecidos derrubados ao meio do caminho; esquivando-se aos cortes de algumas folhagens menos gentis, repetia sempre as mesmas palavras sopradas por entre os ressequidos lábios, como o mantra de sua loucura:
     _ Esmeraldas! Esmeraldas! Esmeraldas!
     Várias horas se passaram até que ele lembrou-se estar com sede. Voltou-se para trás e não mais viu os carregadores e, com uma expressão pornográfica retirou o cantil da cintura deixando escorrer pela garganta seca os últimos pingos de água que ali ainda restavam.
     A água estava no pequeno barril de plástico carregado por um dos homens e Turíbio, contrariado, percebeu que ambos, por medo à praga, o haviam abandonado.
     _ Pouco importa!
     Vociferou e concluiu:
     _ Nestas selvas o que não falta é chuva. Dentro de meia hora ou quarenta minutos poderei molhar a boca.      Mas aqueles desgraçados estavam com os instrumentos de prospecção e... Ah! Malditos! Nisso é que dá pessoas honradas e honestas como eu confiarem nessa ralé mestiça!
     Turíbio então tropeçou em algo inerte e macio. Seus pés subitamente resvalaram em alguma coisa pouco rígida e antes que pudesse perceber o que seria, acabou caindo com o rosto no chão!
     Ainda esbravejando mil maldições contra os dois carregadores, ergueu-se sobre  os  joelhos,   limpando-se com ambas as mãos e sentiu incômoda ardência no rosto. Com uma careta de dor passou os dedos da mão direita sobre a fronte e ao olhá-los novamente constatou que estavam tintos de sangue!
     Olhou para trás e, à luz mortiça do ambiente úmido, deparou com o cadáver de um velho índio atravessado na trilha. Fora então naquilo que tropeçara.
     Finalmente percebeu o fétido odor de corpo humano em decomposição e intrigou-se com a fisionomia do tal cadáver. Aquele velho índio morto parecia estar rindo dele!
     _ À merda com estas superstições e enganosas aparências! Defuntos jamais sorriem! E eu, Turíbio Mendonça, nunca fui homem de deixar-me envolver por terrores. Caminharei sim! Seguirei em frente, vencendo todos os obstáculos, passando por cima de mil cadáveres, sorridentes ou chorosos, sofrendo eu próprio essas feridas nas carnes que a irreverente floresta causou-me, mas nada haverá de deter-me até o sítio das maiores, mais belas e ricas esmeraldas deste planeta!
     E Turíbio, acometido pela febre da obstinação, longe de estancar a caminhada, refugiando-se sob o abrigo de alguma árvore, acelerou os passos. Nos céus, já escurecidos por pardacentas nuvens e vez por outra clareado pelos intensos relâmpagos, ouvira os muitos ribombar dos trovões. Seria Tupã, deus dos silvícolas, amaldiçoando-o pelo extermínio de seu povo?
     _ Bobagens! Lendas para fazerem crianças dormir!
     Pensara consigo próprio.
     Na terra o aguaceiro diluviano desabou sobre a selva, inundando-a por todos os lados e Turíbio percorrendo a picada transformada em lamaçal, a todo o instante caía e levantava-se, vendo o próprio suor misturado às águas das chuvas  e  estas  lavarem-lhe   o   rosto   coberto   por sangue, mercê dos ferimentos que a selva esfechara-lhe.
     Depois, tão rapidamente como começara, a tempestade amainou e poderíamos escutar novamente o canto dos pássaros, o pio das aves pequenas, os gritos dos macacos e, mais ao longe, o temível ronco das onças.
    Após a pequena pausa para a passagem do aguaceiro a natureza voltara à vida. E as árvores assim molhadas pareciam renovadas em vigor e todos os bichos novamente em liberdade, denotavam maior alegria e, juntos, animais e vegetais ignoraram a agonia de Turíbio, o agora quase rastejante ser à procura das esmeraldas!
     Uma súbita sonolência pretendera invadi-lo, mas ele sabia que entregar-se a ela naquele momento, seria o mesmo que render-se aos braços da morte!
     Não à sede que a cada momento parecia saciar nos goles das chuvas, nas poças de algumas charnecas ou nas folhas côncavas dos vegetais que as guardassem, mas a fome o desfigurara porque apesar dos tantos frutos daquela luxúria florestal, ignorava quanto aos que poderiam ser comidos ou os que continham venenos.
     Turíbio temia a morte quase tanto quanto a um mau negócio e, infelizmente, ali já não haviam índios capazes de orientá-lo quanto a uma boa dieta. Por sua ordem todos haviam sido dizimados e agora, sem orientação, famélico e enfraquecido, longe dos mantimentos que os carregadores levavam, num terreno encharcado, multiplicavam-se-lhe as dificuldades!
     Porém sabia que menos de dez quilômetros o separavam das suas tão ansiadas minas de esmeraldas.
     _ Apenas um pouco mais de esforço Turíbio! Esta floresta não pode ser mais forte que você! Não vá fazer como as pessoas fracas e comuns que costumam muito nadar para acabarem morrendo na praia!
     Dissera para si mesmo. E erguendo o peito, suspirando fundo, extraíra do próprio corpo doente as últimas forças para prosseguir.
     Venceu efetivamente os derradeiros dez quilômetros, mas somente pela manhã do dia seguinte, porque acabara adormecendo encostado a um gigantesco mogno e, durante a noite, apesar dos enormes mosquitos, nenhum espírito maligno conseguiu invadir-lhe o sono sem sonhos para cobrar-lhe desforras e pareceu-lhe que a força e gigantismo daquela árvore concedera-lhe por empréstimo, novos ânimos. Chegou mesmo a assobiar uma improvisada cantiga de único refrão:
     _ Esmeraldas! Esmeraldas! Esmeraldas!
     E no ponto onde a trilha fazia sinuosa curva, num quase êxtase de emoção, vislumbrou o acampamento que de súbito, após romper os últimos aglomerados vegetais, surgira-lhe bem próximo.
     A menos de cinqüenta metros estavam as vinte pequenas barracas de “camping” a abrigarem cada qual duas pessoas. Era o quartel general de seus quarenta rapazes.
     Num grito de contentamento sentiu renascer-lhe as forças e, escorregando, caindo, erguendo-se, rastejando-se sobre a lama, rolando contra os esporões dasárvores, cortando-se nas folhas dos capins, percorreu os últimos metros da picada, desvencilhando-se das pedras do chão, puxando as roupas esfrangalhadas que algum espinho ousasse segurar, escondendo a dor sob o manto de uma alegria cobiçosa; essas que só os verdadeiramente avaros e gananciosos  têm o prazer de sentir; e qual um boneco desengonçado, posto fora de equilíbrio por defeituosos mecanismos, volteava sobre si próprio em giros loucos, aos escorregões, tropeços e quedas. Queria gritar chamando os subordinados em seu socorro, mas o ar ainda contido nos pulmões era  pouco  e ele, Turíbio, já não mais possuía forças para inspira-lo.
     A dor insuportável nas ancas o fazia claudicar como um ancião na mais avançada das idades e, curvado, com ambas as mãos à cintura, avançou. Pernas rígidas, endurecidas, respiração ofegante, ar úmido a queimar-lhe os pulmões, suor sanguinolento a escorrer-lhe das faces, suportando o calor que, numa manhã sem sol, parecia afoguear-lhe todo o rosto. Passou as mãos sobre ele, percebendo pelo volume que estava imensamente inchado.
     Finalmente chegou ao centro do acampamento, avistando o engenheiro chefe comodamente recostado a uma cadeira de balanço. E então Turíbio, de forma rouca, conseguiu gritar de alegria!
     Estava salvo! Agora poderia finalmente vir a tomar posse daquelas riquíssimas jazidas de esmeraldas, como um conquistador das Gálias, como o
grande vitorioso que sempre o fora durante toda a sua vida!
     Depois, repentinamente parou, esfregou os olhos percebendo que várias pestanas ensangüentadas desprenderam-se-lhe das pálpebras e gritou novamente.
Desta vez um rugido de terror! Porque o homem que vira sentado à porta da barraca estava morto e, como ele, todos os outros naquele acampamento!
     _ Mortos! Mortos! Como estarão mortos? Por que?
     E sem acreditar viu os tais corpos decompondo-se na lenta degradação da matéria entregue a si própria, sem o sopro da vida capaz de animá-la e
nutri-la, tornando-a dinâmica e ativa.
     Eram os corpos de seus quarenta cúmplices jazendo nas mais diferentes posições, algumas delas até mesmo cômicas, como se aqueles desgraçados, no supremo momento do desenlace estivessem teimando em não se entregar aos  braços da ceifeira de vidas. Mas todos traziam nas faces de olhos esbugalhados, na inchação da pele, do sangue já seco e coagulado escorrido pouco a pouco dos próprios poros, a insofismável marca da mixomatose humana!
     Turíbio então correu. Como num pesadelo de irrealidade, sentiu o corpo leve e dormente. Correu muito até à beira do poço aberto em plena selva. Debruçou-se sobre ele, afinal ansiava por ao menos lavar o rosto e livrar-se daquela intensa e impertinente ardência nas faces que o atormentava.
     Esticou ambos os braços com as mãos em concha para recolher as águas límpidas e com elas refrescar a tez, mas paralisou-se a meio movimento, porque o que até então o que ele ainda não vira, a água mostrara-lhe naquele momento. Como num espelho refletiu-lhe a imensa fealdade do próprio rosto. E Turíbio viu-se: olhos quase saltando das órbitas, vermelhidão por toda a pele, rupturas que mais pareciam provir de rubros caquis rachados!
     Ah! Terrível água cristalina. Reveladora de sua derrota! Água límpida capaz de refletir-lhe todos os detalhes da terrível e impiedosa mixomatose humana que, durante a viagem acabara por contrair! Fora por isso que aqueles carregadores gritaram e fugiram. Não pelo pavor ao vê-lo tocar um coelho morto pela peste, mas diante da constatação da própria tenebrosa e incurável moléstia estampada em seu rosto! E a água exibia, silenciosa, a mesma face disforme, carnes sangrando que a doença, pouco a pouco, devorava! Água serena, cuja tranqüilidade somente fora quebrada quando os primeiros pingos de sangue desprendidos de seu rosto, começaram a cair sobre ela, ferindo-lhe a lisa superfície espelhada, transformando-a em foscas e liliputianas ondas e turvando-as de rubro!
     Turíbio então se deixou cair como uma trouxa de roupas velhas ou simples saco de lixo à beira do poço.

Capítulo 06

     Daquela vez a sonolência veio forte, mas ele, sem nada mais a preservar, não lhe opôs resistência, deixando-se arrastar por ela e logo um sono profundo contemplou-o com um total esquecimento.
     Perdera a noção do tempo, mas o certo é que acordara e tão logo logrou tomar o domínio de si, com um gesto de asco e terror, rolou para o lado,
desvencilhando-se de um esqueleto que jazia logo abaixo dele.
     Olhou ao redor e viu que todos aqueles corpos também haviam sido transformados em simples caveiras e que o capinzal ao redor que tornara a
crescer, pouco a pouco engolia a todos, sepultando-os num silencioso cemitério verdejante.
     Quanto tempo durara-lhe o tal sono? E de quem seria aquele esqueleto escondido sob si mesmo?
     Num salto ficou de pé. Olhou para a água do poço, mas não viu a sua face.
     _ Certamente deve estar turva! Pensara.
     Depois, sentindo-se curado, gargalhou dizendo:
     _ A vacina anti mixomatose falhou com os outros, mas eu sempre tive um organismo especialmente forte!
     Sem esperar surpresas sacudiu das vestes imaginários pós e colocou-se a caminho de regresso à civilização. Algum dia haveria de retornar com mais recursos, aproveitando a oportunidade de que agora aqueles indesejáveis índios encontravam-se todos mortos!
     E tropeçando, gemendo, chorando, Turíbio iniciou sua longa caminhada de volta pela mesma trilha através da qual chegara àquele distante lugar.
     Estamos em 1995. Turíbio desapareceu naquelas selvas há dez anos antes, ou seja, em 1985. Mas a sua fibra jamais arrefeceu. Como uma pessoa erdadeiramente superior, persiste em seus intentos e até hoje busca encontrar a saída para a civilização.
     Portanto, desde essa época vem caminhando sem parar, buscando o segredo da saída, porque - e de tal fato ele jamais o soube - aquela não era a trilha pela qual viera, já engolida pelas selvas. Ao contrário, entrara numa outra sob a forma de um imenso círculo e, semana após semana, depois de muito andar, sofrendo os suplícios do cansaço e da fome, depara-se com horror diante da mesma clareira onde tombaram vítimas da mixomatose humana os seus quarenta ladrões de esmeraldas.
     E ninguém poderá salvar Turíbio, condenado a vagar durante os muito séculos vindouros naquelas inacessíveis selvas, cujos segredos de entrada e de saída somente os índios conhecem. Porém, lá eles não mais existem, mortos que o foram pela praga da mixomatose!
     Resta apenas um pequeno consolo ao cansado náufrago das selvas: às vezes quando, horrorizado, após muito andar pela trilha infinita, depara-se com a mesma clareira de sempre e, durante as noites sem Lua Cheia, ele percebe ao longe as miríades de esmeraldas encravadas nas rochas dos montes a cintilarem para si, como  milhões de olhos cínicos e debochados a piscarem, sem descanso, cumprimentando-o pela sua conquista!
     Realmente Turíbio agora é o único e exclusivo dono de todas aquelas montanhas onde cintilam as rútilas esmeraldas infernais!
     De minha parte, termino a narrativa.
     A todos os gananciosos, avarentos, mesquinhos ou insensíveis às dores humanas eu, o Diabo, vos saúdo e os convido a entrar!

FIM

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