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Notícias - Enviado dia 4 de Julho de 2011

Doenças e a crença néscia em possessão demoníaca 7: uma noção de psicologia prática aplicada à sociologia da religião

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Em nosso meio a maioria das pessoas que se apresentam em transe não são, decididamente, portadoras de nenhuma patologia psiquiátrica. Trata-se da influência de elementos sócio-culturais na representação da realidade. Mas essa página não objetiva tratar desses casos. 


A influência da cultura nos sentimentos, afetos e comportamentos não deve ser, por si só, tomada como doenças mental. Se assim fosse, um cordão de carnaval, aos olhos de outra cultura, por exemplo, poderia ser tomado como um batalhão de dementes.


As alucinações (sintoma psicótico) nesses pacientes podem ocorrer em qualquer uma das cinco modalidades dos sentidos, isto é, visual, olfativa, gustativa, tátil ou auditiva, mas certos fatores etiológicos tendem a provocar fenômenos alucinatórios específicos. Assim sendo, as alucinações olfativas, especialmente aquelas envolvendo o odor de borracha queimada, enxofre ou outros cheiros desagradáveis, são altamente sugestivas de epilepsia do lobo temporal. Os delírios podem expressar uma variedade de temas, incluindo somáticos, grandiosos, religiosos com maior freqüência.


Embora a sintomatologia básica das doenças mentais seja uniforme e universal, ela sofre grande influência do contexto cultural. Delírio, por exemplo, assim como alucinações, são de ocorrência universal em pacientes esquizofrênicos do mundo todo, assim como é também universal a teatralidade dos histéricos, as palavras estranhas proferidas pelos portadores de Tourette e assim por diante. É a mesma universalidade do sintoma da febre diante de uma infecção, em qualquer lugar do mundo.


Entretanto, delirar e alucinar com isso ou aquilo, dependerá do conteúdo cultural do psiquismo de cada um. Mas, mesmo assim, muitos casos continuam sendo objeto de controvérsia, especialmente quando o entorno social do enfermo favorece a interpretação demoníaca.


Supondo verdadeiro o fato das pessoas procurarem apoio religioso proporcionalmente à angústia que as aflige, também será lícito o ditado segundo o qual quem está bem consigo mesmo não incomoda os demais (nem as entidades). Portanto, com clientela garantida pelas mazelas do cotidiano, os sofrimentos emocionais ou angústia existencial são os alvos perseguidos por muitas religiões, tentando tornar a vida mais compreensível, suportável e auxiliando as pessoas a se orientarem dentro de seus contextos problemáticos.


De fato, os problemas de saúde em primeiro lugar, seguido por problemas econômicos e sentimentais, constituem a parte mais expressiva da aflição que leva as pessoas a procurarem uma ajuda religiosa. E essa procura será tão maior quanto mais incômodos forem os problemas e quanto mais escassas forem as condições tradicionais para resolvê-los.


Normalmente a religião mobiliza pessoas a procurar ajuda por causa de suas representações mágicas. Há ainda um elemento facilitador que é concepção cultural da existência de dois tipos de doenças; as do corpo e, desafiando qualquer avanço científico, aquelas do espírito. A igreja, de modo geral, pode se ocupar de ambas, com evidente predileção pelo segundo tipo.


A doença espiritual é mais conhecida em nosso meio como "encosto" (causado por um espírito naturalmente mau) ou "uma obsessão" (causada por um espírito obsessor, entenda-se como quiser). Entretanto esta distinção é muito sutil, na medida em que as doenças materiais de difícil solução médica podem passar, repentinamente, a ser consideradas como agravadas por elementos espirituais.


Ora, para essa população que sente as agruras da vida através da magia de seus corpos, não basta a medicina. Há que se recorrer ao arsenal igualmente espiritualizado. Os sofredores constituem-se num Culto dos Aflitos, procurando seitas e igrejas que mais prontamente atendem seus reclamos. O exótico e exuberante culto pentecostal atende a todos.


Durante os Cultos de Aflição essas igrejas despedem grandes esforços para retirar encostos, desfazer a inveja e o olho-grande, libertar pessoas da feitiçaria, dos despachos de macumba, das possessões por orixás, guias e espíritos. Alguns folhetos chegam ao ponto de trazerem uma lista de indicações ao alcance dos trabalhos dos cultos, tais como problemas de "desemprego, sentimental, financeiro, vícios, enfermidades, nervosismo, depressão, ouvir vozes, ver vultos, familiar", divulga as especialidades terapêuticas da igreja conforme o dia da semana


Um dos perigos mais contundentes desses Cultos de Aflição é tentar alterar o significado de alguma doença para aquele que a está sofrendo. Mas os rituais não implicam, obrigatoriamente, na remoção definitiva dos sintomas, mas na mudança dos significados que a pessoa atribui a esses sintomas ou ainda a uma alteração em seu estilo de vida, protelando perigosamente um tratamento médico adequado.


Fenômenos como o encosto, a possessão pelo demônio ou por um espírito, muitas vezes são sintomas de transtornos emocionais mas, infelizmente, no contexto religioso do Brasil a possessão e o transe são comportamentos culturalmente aceitos e raramente são vistos como sintomas de distúrbio mental.


O falar línguas estranhas, a chamada glossolalia, constituiu um elemento marcante da doutrina pentecostal. Trata-se de uma forte evidência do batismo no Espírito Santo. Alguns antropólogos e psicopatologistas classificam tal experiência extática (posto em êxtase, absorto, enlevado) como sendo um transe de inspiração.


Distinguem esse tipo de transe dos fenômenos extáticos religiosos da umbanda e do candomblé, os quais classificam como transes de possessão. Não vemos como atribuir alguma importância a essa distinção, enfim... De qualquer forma, em matéria de manifestação extática, são tratados juntos e com a mesma terapêutica a glossolalia e o transe de possessão.


Trata-se de um transtorno caracterizado por uma perda transitória da consciência de sua própria identidade, associada a uma conservação perfeita da consciência do meio ambiente. Devem ser incluídos nesse diagnóstico somente os estados de transe involuntários e não desejados, excluídos aqueles de situações admitidas no contexto cultural ou religioso do sujeito.


Isso significa que, durante um culto religioso entrando uma pessoa em transe, voluntariamente, pois ocorre no momento em que isso lhe é adequado, não se pode atribuir esse diagnóstico. Para que o quadro seja reconhecido como Estado de Transe e de Possessão não deve ser voluntário.


 


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