Não sei se relato seria a palavra correta, posto que foi uma história contada por meu avô, quando este era vivo e eu, jovem, e que foi contada por ele por quem a vivenciou realmente. Acho que "lenda" cabe melhor.
O fato é que, em tempos passados, quando tropas ainda se conduziam aqui no sul pelas patas dos próprios animais e com um homem guiando-os num cavalo que não era seu, meu avô teve esta profissão, a de tropeiro, que possibilitou que ele conhecesse muita gente viagens afora, e foi um companheiro de profissão que contou esta história.
E contava o amigo de meu avô, que já era morto antes de eu nascer, que voltava para casa, vindo do bolicho, no povoado onde morava, cruzando um grande campo onde a natureza, sem a intervenção do homem, fazia o possível para encobrir os rastros de um velho rancho abandonado que por ali havia, e que a noite estava especialmente bela pela lua cheia e brilhante, e um céu sem núvens acima dele, quando viu surgir, correndo e rosnando, um grande cão de trás de um esconderijo qualquer, cuja altura, mesmo de quatro patas, superava a de pônei, e cujo pelo era abundante e escuro, com intenções nitidamente hostis, em sua direção. O homem que ali estava era versado em sabedoria popular, e pode ser que sentisse medo, mas sabia que estava diante de um lobisomem e como proceder nesta situação. Andava armado, como a maioria dos homens do lugar, e, dominando-se, sacou seu revólver. Muito antes do cinema popularizar a bala de prata, o que se dizia por estas bandas é que um lobisomem pode ser ferido por arma branca, mas que ninguém que chega tão perto para dar uma facada consegue sair inteiro, e, para ferí-lo com arma de fogo, não se pode mirar no bicho. A bala desvia. Para que ela pegue na pele da fera, há de se atirar em sua sombra, que a lua cheia invariavelmente projeta bem visível. E assim fez o sujeito, deixando o monstro se aproximar o suficiente apenas para que a sombra estivesse a um alcance que não deixaria erro, e viu uma das patas do bicho estourar-se quando, apontando para o chão, puxou o gatilho.
E tal foi a violência do tiro que arrancou uma pata do animal. Um lobisomem que perca uma pata enquanto está em sua forma de fera, será para sempre um homem aleijado, mas estará livre da sua sina. E aquele lobisomem retorceu-se no chão e tornou-se apenas um homem. O que o atingira, piedoso, correu a, com o lenço do pescoço, fazer-lhe um torniquete no antebraço direito, logo abaixo de onde houvera uma pata, que agora era um mão humana morta no chão.
E o desconhecido, nu e fraco, conseguiu sorrir, e disse:
"Obrigado, amigo. Me libertaste de um destino cruel e de um fado desgraçado. Faço questão de te recompensar por isto, mas agora estou pelado no campo. Me deixa retornar a minha casa e me pôr decente, e voltarei com um belo presente pra ti."
E partiu.
Mas o atirador era um homem bom, mas não um homem estúpido. Teve um pressentimento ruim, que algum anjo deve ter-lhe sussurrado enquanto contemplava a mão decepada a bala no chão, e resolveu testar a boa vontade do ex-lobisomem para com seu libertador. Retirou o chapéu e a capa, que por aqui chamam de pala, e colocou os dois sobre um alto moeirão do rancho abandonado, de tal forma que o espantalho se assemelhava a um homem, e se escondeu entre as paredes da ruína, a aguardar o desconhecido.
E este já voltava, vestido e com uma atadura melhor no braço, mas voltava por um caminho diferente, e mais silencioso que se espera de um homem de bem, vendo o pala e o chapéu sobre a madeira, e tomando-os por homem, sacou seu próprio revólver com a mão esquerda, mirou com todo o cuidado e disparou três vezes contra o espantalho improvisado.
Ao ver que o inimigo não caíra, e temendo uma resposta, o homem deu meia-volta e desatou a correr por de onde viera. O outro saiu de seus esconderijo, tomou a capa esburacada e o chapéu e seguiu viagem, deixando para trás uma mão decepada e três buracos de bala num tronco de cerca. Nunca mais viu o antigo lobisomem, e isto foi bom.
Porque um lobisomem, conforme dizia meu avô, protege sempre o seu segredo. Não importa se é homem bom ou mau, se está livre ou não de sua sina. Nunca admitirá, como parte da maldição a que foi sujeito, que outra pessoa, mesmo um filho ou uma mulher, saiba que ele corre ou correu como um cão sob a lua cheia.